Paz não é ausência de caos. É a Soberania de não ser dominado por ele
— ANÓNIMO
Inteligência Original – Arqueologia, Lente, Motor, Bússola
Conan O’Brien. Outro dia por acaso surgiu-me no radar o discurso do Conan O’Brien no Harvard University’s 375th Commencement, no passado dia 28 de Maio.
Neste tipo de eventos anuais muito habituais nas universidades americanas, algum alumni famoso ou com reconhecimento científico, artístico ou académico dos seus pares e do público em geral, partilha a sua experiência sobre de que forma sua passagem pela universidade, a vida do campus e outras travessuras 😊 moldaram a sua personalidade, escolhas pessoais e profissionais e sustentaram os seus momentos de sucesso ou ancoraram os momentos de readaptação.
Acho o Conan um excelente entertainer, guionista e apresentador, e ele sempre demonstrou ter princípios (principalmente em situações que lhe tiraram o tapete). É considerado um gajo muito porreiro e foi responsável por imenso conteúdo de excelência para programas como o SNL e os Simpsons.
Neste discurso, o Conan partilhou de forma desprendida algumas considerações sobre quais os princípios que nortearam as suas escolhas de vida e trabalho, sendo que muitos destes princípios ele aprendeu e vivenciou na universidade (e outros não, muito pelo contrário).
Reconhecendo o trabalho árduo como necessário para obter um diploma, O’Brien aconselhou a turma de 2026 a permitir que o facto de pertencerem à Ivy League passasse para segundo plano. Desafiou-os a chegar a um ponto em que ser licenciado por Harvard fosse “a coisa menos importante que as pessoas sabem sobre vocês”.
Encorajou os licenciados a reconhecerem com humildade que o seu sucesso depende em grande medida da comunidade, da capacidade de se reorientarem perante os fracassos profissionais e da pura sorte.
Sugeriu que aceitar as imperfeições e “assimilar/metabolizar as vitórias com leveza e gratidão” abre espaço para o humor e a bondade.
Rendição Cognitiva. Num artigo recente de dois investigadores da Wharton School of Business, deparei-me com uma cena muito interessante e… complicada. 😊
A rendição cognitiva é o ato de aceitar acriticamente os resultados gerados pela IA, contornando o pensamento independente e a deliberação.
Uma coisa é a descarga cognitiva: delegar partes de uma tarefa à tecnologia, mantendo a verificação do “o quê” (por exemplo, usar um GPS, mas perceber que se está a seguir na direção errada). Outra é a Rendição Cognitiva: Quando o resultado da IA silenciosamente se torna o teu, e deixas de construir a resposta de forma independente.
As experiências revelaram padrões comportamentais preocupantes quando os participantes consultaram um LLM modificado que introduzia erros aleatoriamente. Com o tempo, delegar o raciocínio leva a um “gap de compreensão crítico” – uma discrepância crescente entre a magnitude dos resultados gerados pela IA e o que o ser humano realmente compreende.
Apesar de ser algo que já tenho refletido e até comentado de forma informal e em outros artigos aqui no blog, este assunto cada vez mais está a ter importância na minha própria vida.
Devido a alguns eventos, eu agora, para além de facilitador, coach, trainer, consultor colaborativo e solopreneur da liderança e gestão da Knowmad Ventures, sou agora também responsável por um negócio familiar que implica muita presença, acompanhamento de processos e execução dos mesmos.
Esta nova vida 😊 consome e desgasta as estruturas, disciplina, organização e estratégias de autocuidado, de slow working e de pesquisa, aprendizagem e renovação profissional em que tanto investi.
E que são necessárias para eu poder estar tranquilo, em paz interna e vivendo, sentindo, pensando, fazendo e decidindo de forma equilibrada, focada e com clara noção das prioridades e foco na execução.
Em bom português, ando numa fase de apneia profissional 😊 e a sereia da IA está a sussurrar-me ao ouvido, seduzindo-me para a facilidade, produtividade extra e até mesmo melhoria de performance no rodízio profissional que eu tenho agora.
Existe uma contrapartida. Teria de subcontratar discernimento, pensamento criativo e crítico, decisão. E eu não quero isso.
Cheguei à conclusão de que estava (até este evento) num ponto da minha vida em que podia fazer escolhas informadas e livres sobre este dilema. É um privilégio que resolvi desenhar e construir há vários anos e do qual sou tão grato, mas que sem dúvida não representa a maior parte dos contextos profissionais, eventualmente incluindo o teu.
Foi neste ponto que me caiu aqui uma ficha:
A IA é atraente porque faz com que nós consigamos “fazer mais” do que realmente conseguimos fazer.
E muita gente depois leva isto para um nível ainda mais complexo:
A IA faz de nós “mais” do que realmente “somos” neste momento.
E isto é um grande rolo e desafio que é importante olhar de frente agora! 😊

INTELIGÊNCIA ORIGINAL EM PRÁTICA
A minha resposta àquela pergunta com que finalizei a primeira parte deste artigo – “imagina a tecnologia sem as ‘dinâmicas’ que associamos às tech companies” – foi um sorriso. Mas um sorriso não é um plano. 😊
A Inteligência Original é a essência que constrói o caminho onde a sabedoria se torna prática e fruição.
O framework ALEC – Arqueologia, Lente, Engine/Motor, Compass/Bússola – não é um quadro decorativo. É uma estratégia.
Cada dimensão tem uma transferência organizacional concreta, com acionáveis, entregáveis e metodologias. E cada uma ancora uma das quatro frentes onde a Inteligência Original se manifesta: desenvolvimento de pessoas, performance de pessoas e processos, design de cultura e estratégia responsiva.
Na Knowmad Ventures, este trabalho não vive em três caixas separadas – vive em três galáxias que valem por si mesmas e que se entrelaçam como um sistema maior:
A Evolução das Pessoas vive na Arqueologia e na Bússola: aprofundar a linhagem profissional e ancorar o propósito é o que transforma o Coaching e Mentoria em discernimento contextualizado, e não apenas num plano de performance individual.
A Transformação Organizacional vive na Lente e na Bússola: ler o contexto com rigor crítico e criativo e ancorar a estratégia num propósito maior é o que impede a transformação de virar um peep show de métodos. O Design Thinking e Critical Thinking com alma são ótimas opções, pois funcionam como um sistema emocional e mental nas organizações.
A Cultura e os Workflows Colaborativos são o Motor no estado puro: rituais, ritmos e working agreements que tornam o discernimento um hábito coletivo e não um heroísmo solitário. É aqui que a colaboração deixa de ser uma intenção simpática e passa a ser uma arquitetura.
ARQUEOLOGIA – DESENVOLVIMENTO DE PESSOAS (Descobrir antes de Construir)
Não há desenvolvimento sem mergulho. Antes de pedir a alguém que cresça, é preciso saber de que terreno se parte. A Arqueologia é o trabalho de mapear a linhagem profissional, valores não-negociáveis e o génio singular de cada pessoa – porque competências treinam-se, a mas identidade descobre-se.
Que tal uma sessão de Professional Lineage Mapping (de quem herdei o meu modo de trabalhar?) Ou um diagnóstico de forças com CliftonStrengths ou Working Genius (Lencioni)? São ótimos pontos de partida para conversas de carreira que separam skills da identidade e dão nome às cicatrizes profissionais que ainda decidem por nós.
O Ikigai é fantástico para a interseção propósito-competência. A Johari Window para iluminar pontos cegos.
O Personal Operating Manual partilhado em onboarding (como trabalho melhor, o que me desgasta, como me dar feedback) é a melhor forma de todos estarmos no mesmo comprimento de onde no que à motivação, skills naturais, formas de comunicar e colaborar diz respeito.
LENTE – PERFORMANCE DE PESSOAS E PROCESSOS (Ler o Contexto antes de Agir)
Performance sem leitura de contexto é como andar a mil na completa escuridão. A Lente treina a capacidade de ler situações através de experiência vivida e relacional – e é exatamente aqui que mora o pensamento crítico e criativo. Antes de otimizar um processo, a pergunta honesta é se estamos a resolver o problema certo ou apenas o problema confortável.
Podemos sempre introduzir Pre-mortems antes de decisões irreversíveis. Aplicar a Ladder of Inference para separar factos de interpretações antes da equipa iniciar trabalho no seguimento de uma conclusão precoce.
O Cynefin funciona bem para classificar o contexto – claro, complicado, complexo, caótico – e assim escolhemos a resposta certa em vez da resposta habitual. O Six Thinking Hats é bem fixe para a deliberação estruturada, e as After Action Reviews convertem cada execução em aprendizagem, não em culpa.
MOTOR – Design de Cultura Organizacional (sustentar a prática)
O Motor é a cadência que mantém o discernimento vivo – rituais, ritmos e working agreements que tornam a sabedoria um hábito coletivo, e não um evento anual de offsite com posters que ninguém relê.
Check-ins, retrospetivas quinzenais com ações documentadas acompanhadas de working agreements por equipa reforçam os comportamentos potenciadores dos profissionais, equipas e organização.
As Liberating Structures proporcionam uma participação real em vez de monólogos. Também podemos apostar nas decisões por consentimento (Sociocracia) para a equipa, e RAPID/DACI para a corporação.
O segredo do Motor é simples e algo ingrato – a consistência vence a intensidade.
BÚSSOLA – Estratégia Responsiva + Criatividade (ancorar num propósito maior)
A Bússola – a dimensão que impede a estratégia de virar marketing e a criatividade de se tornar dispersão. Ancorar decisões num propósito maior que o próprio liberta, paradoxalmente, a imaginação: dá-lhe direção em vez de a limitar. É a diferença entre brainstorming sem fim e criação enraizada.
Podemos tornar explícitas as Ethical Bets – onde aceitamos “sacrificar” lucros para preservar a nossa integridade. E trabalhar em Strategic Foresight anualmente com stakeholders internos e externos, incluindo os silenciosos.
Um AI Decision Protocol documentado recomenda-se para os dias de hoje 😊 (o que a máquina recomenda, o que executa e o que nunca decide). Three Horizons para equilibrar o negócio de hoje com o que está a nascer e Futures Wheel para mapear consequências de segunda e terceira ordem, também trazem grande clareza e prioridades.
ALGUMAS BOAS PRÁTICAS:
🟢 Identifica o porquê: certifica-te de que consegues reconstruir o raciocínio por trás de uma recomendação da IA antes de a endossar;
🟢 Evita a utilização quando estiveres cansado ou pressionado: a rendição é frequentemente num contexto de fadiga; a quinta sugestão do dia recebe muito menos escrutínio do que a primeira;
🟢 Faz uma verificação cruzada: trata a IA como uma caixa de ressonância ou ferramenta para aliviar o atrito, não como uma autoridade infalível isenta de revisão.

CODA
À medida que as máquinas se tornam mais eficazes no seu papel de máquinas, os seres humanos têm de se tornar mais eficazes e competentes no seu papel de seres humanos. 😊
Estas quatro dimensões do ALEC são “eternas” como um ciclo de respiração consciente. Descobre-se (Arqueologia), lê-se (Lente), sustenta-se (Motor) e ancora-se (Bússola) – e repeat. 😊
A IA pode acelerar qualquer um destes passos. O que não pode é decidir qual deles importa hoje. A pergunta não é que ferramentas usar.
É: Quem é responsável pela consequência quando a máquina já não intervém?
Precisamos de reconectar e enraizar nesta Inteligência Original que aqui proponho. E isso passa por Saber Sentir e Saber Agir.
E isto é importante porque as organizações são o mais forte impulsionador das mudanças que precisamos e desejamos para as Pessoas e Mundo.
Então a Inteligência Original é um ativador de Abundância.
Estou a falar de uma Abundância onde são as questões humanistas que balizam as invenções, inovações, progresso, decisões e ações dos profissionais e das organizações.
Essas balizas são definidas por questões como:
- O que é que é escasso e deveria ser abundante?
- O que é difícil de construir, implementar e resolver que deveria ser fácil?
- De que invenções e inovações precisamos e que ainda não temos?
A Abundância é um veículo e inspiração para a renovação humanista e um compromisso para alinharmos a nossa inteligência coletiva para o progresso e resolução das necessidades uns dos outros e deste planeta.
A Abundância não é tanto sobre termos mais, mas sim construirmos mais do que realmente importa.
A Abundância é progresso.
E o fim último do progresso é a expansão do nosso Ser.
Obrigado, Abraço e Fica Bem,
H