Ética – conjunto de valores e princípios que nós usamos para decidir as três grandes questões da vida: “Quero?”, “Devo?”, “Posso?”
— MÁRIO SÉRGIO CORTELLA
EVOLUÇÃO PROFISSIONAL = MENTALIDADE CRÍTICA, IMAGINAÇÃO CRIATIVA, INTUIÇÃO ÉTICA
Investigadores da Universidade de Amesterdão quiseram perceber se ver alguém quebrar uma regra pode levar outras pessoas a fazer o mesmo, ou ainda pior. A investigação foi feita tendo por base 750 cidadãos americanos, abordados uma semana antes das eleições presidenciais de 2024.
Metade dos participantes era democrata, a outra metade republicana, o que serviu como fator de identificação de grupo. Nos testes realizados online, pediram aos participantes para escolher o quadrado mais brilhante, entre vários quadrados brilhantes no ecrã.
Os participantes também recebiam dinheiro: quem escolhesse quadrados numa determinada zona do ecrã, mesmo não sendo os mais brilhantes, recebia mais. Os testes foram feitos várias vezes, sempre com informação adicional sobre escolhas anteriores de outros participantes, ou seja, toda a gente ficou a saber do esquema subreptício de ganhos.
Os resultados são esclarecedores: quem seguiu as regras e escolheu sempre o quadrado mais brilhante, não foi copiado no seu comportamento, nem sequer por quem partilhava a mesma escolha política. Já quem apostou na zona de maiores ganhos, e conseguiu mais benefício próprio, contagiou outros participantes, sobretudo nas pessoas do mesmo grupo.
Ou seja, quebrar as regras é de facto contagioso. O estudo concluiu ainda que 4% dos participantes foram mais longe do que os outros, ou seja, quebraram mais regras. E teve mais proveitos. A percentagem é baixa, mas este pequeno grupo pode ter a capacidade de influenciar muita gente e provocar uma quebra no sistema.
Os investigadores afirmam ainda assim, que as suas conclusões não significam que todas as violações das regras, mesmo as mais pequenas, devem ser travadas.
Devem ser detetadas atempadamente e compreendidas no seu contexto. E então avaliar se é para manter ou se fazem sentido novas regras. Quebrar as regras com contexto, dizem, também alimenta a aprendizagem, a experimentação e a criatividade. No limite, provoca a mudança e corrige injustiças.
CRÍTICO, CRIATIVO E ÉTICO
A próxima evolução do trabalho não será exclusivamente tecnológica. Será Ética, através de nos capacitarmos para um next level de competências estratégicas e de curadoria. Eu explico:
Pensa na IA como sendo uma central nuclear.
Esta gera energia de uma potência enorme. Pode iluminar uma cidade inteira ou contaminar um território durante décadas. O que decide entre uma coisa e outra não é o reator: é tudo o que se constrói à volta dele.
Uma central nuclear não é segura porque a tecnologia é boa. É segura porque assenta em cinco camadas que as organizações que hoje adotam a IA sem critério raramente desenham com o mesmo rigor.
COMPETÊNCIA DOS OPERADORES. Ninguém entra numa sala de controlo sem licença, horas de simulador e formação contínua. Nas organizações, qualquer pessoa usa IA a partir de amanhã, sem ter aprendido a avaliar o que ela produz. É aqui que o pensamento crítico deixa de ser opcional.
ACESSO CONTROLADO. Numa central há zonas, níveis de autorização e regras claras sobre quem toca em quê. Numa organização, a pergunta equivalente é: quem pode usar que IA, com que dados e para que decisões? Os graus de liberdade de cada função têm de estar definidos antes, não depois do incidente.
MECANISMOS REDUNDANTES. A segurança nuclear funciona por defesa em profundidade: várias barreiras independentes, para que a falha de uma não seja a falha de todas. Nas organizações, isso significa um segundo olhar humano nas decisões críticas, revisão cruzada, e a regra simples de que a IA amplia, mas é o humano que decide.
SISTEMAS E CRITÉRIOS BEM DEFINIDOS. Uma central tem limites operacionais, procedimentos escritos e critérios de paragem automática. Nas organizações, isto traduz-se em critérios explícitos sobre o que se automatiza, o que se mantém humano, que indicadores se vigiam e quando se trava um sistema que deixou de merecer confiança.
CULTURA DE SEGURANÇA. O conceito nasceu depois de Chernobyl, onde os sistemas de proteção foram desligados para concluir um teste. A falha não foi técnica, foi cultural.
Nas organizações com IA, a curadoria de ética cumpre esta função: um ambiente onde reportar um erro, questionar um output ou dizer «isto não devíamos fazer» é seguro e valorizado.

A metáfora funciona também no sentido contrário. Uma central tão fechada que nunca produz energia é tão inútil quanto uma insegura.
O objetivo não é travar a IA, é operá-la com a disciplina que a sua potência exige. E aqui a parte mais perigosa nunca é o reator: é o operador que deixou de fazer perguntas.
Então, pensa comigo. 😊
Se para tecnologias, ferramentas, instalações, tarefas, decisões que têm um grau de severidade elevado para o nosso bem-estar, segurança e vida, tais como:
- Medicina;
- Forças de segurança;
- Instalação e manutenção de utilities;
- Obras de engenharia;
- Conduzir de forma segura e competente veículos como carros, aviões, barcos e comboios;
- Biotecnologia e manipulação e gestão de substâncias perigosas;
- Etc.
é necessário algum tipo de certificação, acreditação, treino, estágios e outras validações…
Por que raio é que deixamos a IA à solta, sendo uma tecnologia que permite que, com um computador, Wi-Fi e eletricidade, se possam criar alterações sísmicas em atividades e dimensões críticas para nós como sociedade, negócios, ecologia, segurança, saúde e afins?
Porque é que todos nós, no nosso trabalho e organizações, potencialmente podemos operar e gerir “centrais nucleares” individuais e globais, não estando devidamente capacitados a nível crítico, criativo e ético?
Exato! 😊
O que este mundo e as disrupções malucas que vivemos nos pedem é que o trabalho, produtos, serviços, profissionais e organizações sejam competentes na interpretação do ecossistema da organização e fora dela (insights); que possamos ser habilidosos na análise de insights e conclusões desse contexto (pensamento crítico) e em como podemos fazer melhor e diferente (pensamento criativo).
Durante décadas, o valor de um profissional mediu-se pelo que produzia: relatórios, análises, propostas, código, campanhas. Hoje, uma primeira versão de quase tudo isso aparece feita em segundos. A pergunta deixou de ser “quem consegue fazer?” e passou a ser “quem consegue dizer se está certo, se é novo e se é justo?”.
Ou seja, eu e tu teremos de ser competentes ao darmos as melhores respostas a estas perguntas:
É este o next level profissional.
As responsabilidades centrais deslocam-se da execução para três funções que a tecnologia amplifica, mas não assume e que sugiro que continuem a ficar apenas no descritivo de funções do Ser Humano: pensar criticamente, pensar criativamente e fazer curadoria de ética. Não são soft skills decorativas. São o núcleo da cadeia de valor quando a produção se torna abundante.
O risco do lado oposto tem nome: rendição cognitiva. Profissionais que aceitam o primeiro output, organizações onde “o algoritmo disse” substitui a responsabilidade. A máquina pode acelerar. Só o humano pode decidir o que merece ser acelerado.
PENSAMENTO CRÍTICO: julgar o que se produz. Separar facto de interpretação, testar pressupostos, detetar o que falta. Com IA, é a competência de rever, duvidar e assinar o resultado.
PENSAMENTO CRIATIVO: formular o que ainda não existe. Resolver é cada vez mais barato; definir bem o problema é cada vez mais raro. A criatividade desloca-se da geração de opções (a máquina gera centenas) para a formulação da pergunta, a combinação improvável e a escolha do que vale a pena explorar.
CURADORIA DE ÉTICA: DECIDIR O QUE DEVE SER FEITO. Não é apenas compliance. É a prática diária de perguntar quem é afetado, que consequências de segunda e terceira ordem existem e que decisões nunca devem ser delegadas a um sistema. Curar é escolher, contextualizar e responder pela escolha.
As três funcionam em conjunto. Ao nível da organização, as três responsabilidades aparecem em quatro momentos-chave: no governance (quem decide e com que critérios), na estratégia (que apostas fazer e onde parar), no design do trabalho (o que é humano, aumentado ou automatizado) e na cultura (o que se premia quando alguém diz “não” ou “e se?”).

3 NEXT LEVELS, 3 GALÁXIAS
Cada uma das três responsabilidades só se torna real quando acontece nas três galáxias ao mesmo tempo: nas pessoas (saber), na estrutura (poder) e na cultura (querer).
Evolução das Pessoas: saber
Tudo começa no profissional. Pensar criticamente é aprender a julgar o que produz e o que a máquina lhe entrega, e a assumir o resultado como seu, em vez de o reencaminhar. Pensar criativamente é formular perguntas e problemas que só ele, com a sua experiência e a sua identidade, consegue ver. Fazer curadoria de ética é saber quais são os seus valores não-negociáveis e ter coragem para os aplicar quando o prazo aperta e a resposta fácil está à distância de um clique.
Um profissional que aprendeu a questionar e volta para uma estrutura que não o deixa decidir fica mais frustrado, não mais eficaz.
Transformação Organizacional: poder
A segunda galáxia cria as condições para que essas capacidades sejam usadas. O pensamento crítico precisa de decisões tomadas no nível certo, com tempo e autoridade para rever antes de aprovar. O pensamento criativo precisa de trabalho redesenhado: se a IA assume parte da execução, o tempo libertado tem de ir para formular e explorar, e não para produzir ainda mais do mesmo. A curadoria de ética precisa de fronteiras claras sobre o que nunca se delega a um sistema e sobre quem responde por cada decisão.
Sem esta galáxia, as capacidades das pessoas ficam sem palco.
Cultura e Workflows: querer
A terceira galáxia decide se as pessoas querem, de facto, usar o que sabem e o que podem. O pensamento crítico só sobrevive onde questionar é seguro e o erro é analisado em vez de escondido. O pensamento criativo só floresce onde experimentar é normal, e onde parar uma iniciativa que não funciona é visto como inteligência e não como fracasso. A curadoria de ética só é real quando os valores são praticados por todos no dia a dia, e não guardados por um comité que se reúne duas vezes por ano. É a cultura que transforma uma capacidade individual num comportamento coletivo, e um comportamento coletivo numa vantagem que a concorrência não consegue copiar.

CODA
Autores como Thomas More, Edward Bellamy, H. G. Wells, Isaac Asimov, Philip K. Dick, Arthur C. Clark ou Frank Herbert.
Filmes e series como Matrix, Her, Severance, Elysium, Total Recall, 3%, Terminator, Interstellar, Cloud Atlas.
Civilizações ancestrais e contemplativas como a Grécia Antiga, Hopi, Sumérios, Védicos, Persas, China Antiga e outras.
Combinações de bom senso, lógica, ciência, dados, opiniões, insights e lições aprendidas, que temos à nossa disposição hoje.
Acho que já temos toda a informação e especulações necessárias para podermos, com relativa facilidade, prever o que nos espera, consoante as nossas decisões individuais e coletivas. 😊
Nas organizações, é exatamente igual. Já conhecemos as seduções e o estoicismo, as vantagens e desvantagens, os ganhos e perigos, e demais variáveis e consequências sobre qual o impacto que o trabalho, profissionais e organizações têm e terão nas Pessoas e no Mundo.
Há um ditado chinês que diz que, se dois homens caminham por uma estrada, cada um carregando um pão, ao cruzarem-se, eles trocam os pães; cada um vai embora com um.
Porém, se dois homens caminham por uma estrada, cada um carregando uma ideia, ao encontrarem-se, trocam as ideias; cada um vai embora com duas.
Quem sabe é esse mesmo o sentido do nosso fazer crítico, criativo e ético: partilharmos ideias, para todos termos pão…
O melhor desenvolvimento profissional que podemos vivenciar é darmos o nosso melhor para sermos a melhor pessoa que podemos ser. E essa avaliação é feita através de critérios e comparações internos, não por uma definição volátil e superficial de sucesso ou moral.
Vejo com muitos bons olhos uma perspetiva em que consideramos o nosso trabalho como profissionais e o propósito das nossas organizações, através das atividades, produtos, serviços, soluções, como geradores primordiais de impactos que…
Nutrem e alimentam o Self. Não o ego. 😊
Parece o mesmo, mas como certamente reconheces, são coisas completamente diferentes.
Obrigado, Abraço e Fica Bem,
H