Jejum Intermitente Organizacional

Jejum Intermitente Organizacional

1920 1080 Hugo Gonçalves

—   THICH NHAT HANH

Vícios. Nos últimos tempos tenho retornado a alguns vícios. 😊

Nomeadamente aquele em que devoro livros, não só associados ao meu desenvolvimento pessoal e profissional, mas também sobre temáticas díspares, sobre a atualidade e o ancestral.

Tendo já referido num artigo anterior o maravilhoso e irónico “Cartas de um Homem de Sucesso ao seu Filho”, mergulho também no “A Arte de Não Ter Sempre Razão”, onde o filósofo canadiano Martin Desrosiers, como resposta a um tempo em que as opiniões se tornaram trincheiras e cada debate parece resultar numa escaramuça. e em que todos parecem determinados a “ter sempre razão”, nos convida a recentrarmos o diálogo no que realmente importa: compreender melhor o mundo e os outros.

E assim recalibrar o ato de conversar, debater e trocar pontos de vista como sendo um hábito de integração, exploração e evolução – Amor Humanista, e não um combustível que alimenta o egoísmo, a agressão, o julgamento e o castigo – que normalmente têm a sua origem no medo.


Ignorância e Obesidade.
Caramba, que combinação. 😊

Entre devorar livros e absorver podcasts, é fácil perderes-te no labirinto de temas e vozes. Segues certamente uma infinidade de perfis sobre produtividade, negócios, estratégia, filosofia, economia. A cada dia guardas mais artigos do que consegues revisitar.

E provavelmente, o valor que sacas disso pode ser superficial e irrisório.

Não é uma acusação. É um diagnóstico. E aplica-se a muita gente que, ao desejar desenvolver-se profissionalmente através da eficiência (o muito, o mais, a otimização), está a retirar energia, foco e tempo à Eficácia (o que é importante, o que é necessário, o que nutre).


Estarei aqui a falar provavelmente de uma doença da abundância denominada Obesidade Intelectual. 😊

Acontece quando o consumo de informação excede de tal forma a capacidade de a aplicar que o conhecimento deixa de ser útil. Acumula-se. Pesa. Ocupa espaço.

Os profissionais “intelectualmente obesos” sabem mesmo muito. Falam muito bem. Tem opinião sobre tudo. Mas quando chega a hora de escrever, de decidir, de construir, de arriscar, de executar por si mesmos, não são assim tão expeditos. Como li algures, saber tornou-se uma forma de adiar.

Há vinte anos, o problema era a falta de acesso à informação. Hoje, o problema é o oposto. O acesso é total. Infinito. Gratuito. É contínuo. Não há pausa. Não há digestão. Não há o momento em que o cérebro se senta com o que aprendeu e pergunta: e agora, o que faço com isto?

Substituímos a ação pelo consumo. E convencemo-nos de que consumir é o mesmo que evoluir. Ler sobre disciplina não te torna disciplinado. Ouvir um podcast sobre empreendedorismo não te torna empreendedor. Guardar um artigo sobre escrita não te torna escritor. Só uma coisa faz isso: fazer.

Fazer expõe. Fazer revela o que ainda não sabes. Fazer obriga-te a confrontar a distância entre aquilo que consomes e aquilo que és capaz de produzir. E essa distância, para quem consome muito, é brutal. É por isso que o consumo vicia. Porque dá a ilusão de progresso sem o risco da exposição.

A Ignorância Crítica é a capacidade de escolher deliberadamente o que não ler, ver ou com que não interagir, para que a tua atenção limitada se concentre no que realmente importa.

Os investigadores definem-na como uma forma de ignorância deliberada: ignorar conscientemente a informação, mesmo quando esta é de fácil acesso, a fim de gerir a sobrecarga e evitar conteúdos de baixa qualidade ou criadores de vieses e dogmas. Complementa o pensamento crítico em vez de o substituir; primeiro filtra-se o lixo óbvio, depois aplica-se o pensamento crítico ao conjunto mais reduzido que resta. 😊


Na nossa sociedade, a nossa atenção é monetizada, pelo que as plataformas são otimizadas para cativar o utilizador com indignação, novidade e conflito, e não com a verdade.

Quando pessoas curiosas, cíticas e criativas investem um esforço analítico profundo em cada conteúdo provocador, a sua atenção já está sequestrada e elas amplificam exatamente o que deveria ter sido ignorado.

A nossa capacidade cognitiva e de atenção é limitada; tentar avaliar seriamente tudo num ambiente de informação de alta densidade é impossível e exaustivo. Tratar a atenção como capital significa orçamentá-la: decidir antecipadamente quais os tópicos, fontes e pessoas que merecem uma atenção sustentada.

Nesse sentido, a Ignorância Crítica Deliberada é uma habilidade de sobrevivência adequada para 2026 e mais além, digna dos skills críticos do World Economic Forum. 😊

Protege a tua mente e coração, para que o teu melhor raciocínio e intuição estejam reservados para as poucas decisões que realmente fazem a tua vida e o teu trabalho avançarem.

A grande questão com a IA, redes sociais, informação e dados não é o seu potencial, mas como são alimentados. Se os inputs são pobres e podres 🤣 – redes sociais polarizadas, especulação, preconceitos e vieses, então não parece fazer muito sentido basear as nossas decisões, interpretação do mundo e “desempenho” numa abordagem em que a qualidade da informação, a sua análise crítica e os princípios éticos da sua aplicação não são mais robustos e humanistas.

Nas organizações, também temos dados, informação, rádio alcatifa, boatos, perceções, mitos, que de uma forma ou outra induzem a nossa clareza, foco do que realmente é importante e podem levar à degradação da colaboração, motivação, foco e produtividade

O desempenho profissional não se resume apenas à eficiência. Desempenho = Objetivo + Prioridades + Eficácia + Ética


O jejum não é uma invenção recente. No Paleolítico, por exemplo, só se comia quando havia êxito na caça e os jejuns prolongavam-se por alguns dias. Os humanos evoluíram para serem capazes de viver sem alimento por longos períodos.

Acho que a utilização do jejum intermitente como metáfora para o desenvolvimento organizacional é uma abordagem poderosa para descrever processos de eficácia, renovação e foco estratégico. Assim como o corpo humano, as empresas podem sofrer de “obesidade operacional” e processos inflamatórios que impedem o crescimento saudável.

Estando eu certamente sob a influência de quantidades incomensuráveis de açúcar e calorias, devido a uma Páscoa de conforto 😊 no que a comida diz respeito, comecei a imaginar que para além de mim, os profissionais e organizações poderiam explorar o conceito do jejum intermitente como metáfora do desenvolvimento organizacional, e ligando isso com as 3 galáxias de Desenvolvimento de Pessoas e Organizações que constituem a essência do meu trabalho:

A Evolução das Pessoas – como podemos colocar Quem Somos naquilo que Fazemos?

Transformação Organizacional – Como intercalar o pensamento crítico e criativo no sentido de podermos compreender o que se passa no Mundo, o que as Pessoas precisam e como isso se pode traduzir em produtos, serviços e soluções que criem impactos humanistas.

Cultura, Colaboração e Produtividade – Como utilizar a capacitação das Pessoas e o Propósito, Curiosidade e Ambição Moral para, através de decisões, colaboração, distribuição de trabalho, transformar as atividades e outputs da organização em algo exequível, desejável, viável, sustentável e eticamente humanista.

Estas 3 galáxias constituem o gravitas da Engenharia Organizacional. Continuando com estas analogias e vipes 😊:

No plano biológico, o jejum ativa a autofagia, em que as células eliminam componentes danificados para se renovarem.

No desenvolvimento organizacional, isso representa a identificação e eliminação de burocracias obsoletas, projetos “zombies” que consomem recursos sem gerar valor, e fluxos de trabalho redundantes. É o momento de “digerir” e expelir o que não serve mais para fortalecer o núcleo do negócio. Isso também se aplica ao Desenvolvimento das Pessoas – novo conhecimento, experiência, capacitação, formas de trabalhar.

O jejum treina o corpo a usar reservas de gordura de forma eficiente.

Refere-se à capacidade da organização de operar de forma ágil. Em períodos de restrição de recursos (o “jejum de capital”), a empresa é forçada a otimizar sua eficiência operacional, aprendendo a utilizar suas reservas estratégicas e talentos internos de maneira mais criativa e menos ineficiente.

Estudos indicam que o jejum pode aprimorar o foco e a neuroplasticidade.

O excesso de informação e de objetivos simultâneos gera uma “névoa mental” corporativa. Alternar períodos de execução intensa com períodos de abstinência de novos projetos permite que a liderança recupere a clareza estratégica e os profissionais o seu foco e energia. O “jejum de distrações” ajuda a focar no que é essencial para a sobrevivência e expansão a longo prazo.

O método baseia-se na alternância entre períodos de consumo e restrição.

Organizações de alto desempenho podem adotar ritmos cíclicos. Em vez de tentar crescer em ritmo máximo 100% do tempo (o que leva ao burnout), a empresa alterna “janelas de expansão” (contratações, novos mercados) com “janelas de consolidação” (jejum de novos gastos, foco em cultura e processos internos).

O corpo adapta-se ao stress provocado pelo jejum, tornando-se mais forte. O desenvolvimento organizacional utiliza o conceito de antifragilidade. Expor a empresa a pequenos períodos de “stress controlado” (como prazos desafiadores ou orçamentos limitados) obriga as equipes a desenvolverem novas competências e soluções inovadoras que não surgiriam em cenários de abundância constante.

Sou grande fã da metáfora, do sonho, da imaginação – capacidades humanas “divinas” que desde sempre nos cativaram. Para além da empatia, talvez falte também criatividade amorosa e analítica compassiva nos profissionais e organizações.

A imagem acima materializa a forma imaginada (sob o tal efeito de açúcares e comfort food 😊) o mecanismo do jejum, os órgãos e glândulas envolvidas e a sua utilização metafórica para as dimensões e contextos organizacional


Temos a ideia de que o valor maior está associado ao dinheiro. Mas algumas organizações mais distópicas já identificaram em nós tesouros mais preciosos (e perigosos). A necessidade de segurança, de lidar com o medo, de validação de grupo.

Eu tenho muita consciência e sou muito arisco da importância e do valor da minha intimidade, acesso, atenção, energia, tempo. São imensamente valiosas, e dou o meu melhor para apenas as partilhar com pessoas, interações, assuntos e consumos que realmente as honram.

E para isso, após algumas fases de obesidade intelectual e de networking, escolho a ignorância deliberada e o jejum intermitente para voltar ao equilíbrio. 😊


A ideia por detrás do jejum intermitente organizacional não é a ausência, cortar ou perder. O seu princípio é unificador:

O jejum não é ausência — é sinal.


O “vazio” ativa mecanismos de regeneração, eficiência e adaptação. Escuto e leio estas exatas palavras como sendo os outputs e outcomes que as organizações e líderes “pedem” aquando de briefings, workshops, processos de Mentoring e Coaching e intervenções de desenvolvimento de pessoas e transformação organizacional da KNOWMAD.


E esta purga, limpeza ou fine tuning profissionais e organizacionais são mesmo necessários.

Pois a impermanência, a mudança e capacidade de sermos curiosos com o novo e diferente e os vermos como possibilidades e não como perda ou insucesso serão uma pedra angular no nosso trabalho e na nossa vida mais íntima.

No seu livro mais conhecido, “Alegria de Viver”, Yongey Mingyur Rinpoche afirma que a vacuidade não é exatamente “vazio” nem “a existência do nada”. Tem a ver com amplitude no sentido de algo além de nossa habilidade de perceber com nossos sentidos e da nossa capacidade de conceitualizar. Talvez uma tradução melhor fosse “inconcebível” ou “que não pode ser nomeado”.


O espaço sideral é a vasta extensão do universo que existe além das atmosferas dos corpos celestes, como a Terra. É um ambiente composto por vácuo quase perfeito, preenchido por radiação eletromagnética, poeira cósmica, plasma e diversos astros

Então se calhar, a vacuidade não é sobre o vazio.


Obrigado, Abraço e Fica Bem,

H

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