A Esperança é a mão misteriosa que nos aproxima do que desejamos e nos afasta do que tememos
— SEVERO CATALINA
O Soft Power em organizações refere-se à capacidade de influenciar e moldar as preferências de outros através da atração e persuasão humanista
Grécia Antiga. Pygmalion era um antigo escultor grego. Ele simultaneamente amava e temia as mulheres. Um gajo normal, portanto. 😊
Criou uma escultura de uma mulher, para a qual olhava sempre que queria. A escultura era tão perfeita, que se “apaixonou” por ela. Quando conheceu a deusa do amor, Afrodite, numa festa, ela concedeu-lhe um desejo. Pygmalion desejou uma mulher igual à da sua estátua e, com o poder de Afrodite, a sua escultura tornou-se viva quando ele voltou para casa e beijou-a. Simples! 😊
1968. O psicólogo Robert Rosenthal estudou o chamado Efeito Pygmalion: alguns professores de uma escola primária pública foram informados de que certos alunos iriam ter um grande crescimento cognitivo (baseados em testes anteriores). Mas essas crianças foram escolhidas aleatoriamente.
No final do ano, alguns desses alunos de facto apresentaram os maiores ganhos de QI e QE. O estudo concluiu que os microcomportamentos inconscientes de alguns professores, transmitiram uma crença nas capacidades dessas crianças, influenciando positivamente o seu desempenho. Sinalizaram um “acreditar” nessa criança.
Através de mais contacto visual, maior paciência após erros. Dando espaço para responder com calma, e oferecendo um feedback mais detalhado.
Os micro comportamentos fizeram com que as crianças se sentissem capazes. Isto tornou-se parte da sua identidade e foi-se acumulando ao longo do ano nos seus resultados. Então, o Efeito Pygmalion refere-se ao impacto das crenças e expectativas dos outros na formação dos nossos próprios resultados (pelo menos em alguns timings e contextos).
Leituras. Outro dia dei por mim a refletir sobre as temáticas dos livros que ando a ler nos últimos 2 ou 3 meses. Então cá vai:
Vida e a Morte – O Livro Tibetano da Vida e da Morte, onde acho que o tema é auto explicável. 😊
A escassez, a segurança e a recompensa, através de uma overdose de abundância – O Cérebro de Escassez.
Desistir – Desistir e o Poder de Ir Embora, no sentido de perceber quais os contextos e critérios para podermos melhor avaliar quando insistir e quando desistir.
Interoceção – O Sentido Interior, a nossa capacidade em perceber e interpretar os sinais internos do nosso corpo, como necessidades fisiológicas, sinais vitais e estados emocionais.
Tirando talvez o último, os temas são “antagónicos” aos que normalmente procuramos – felicidade, performance, abundância, ter tudo, ser resiliente. São assuntos desafiantes. É como se estivesse uma matilha de cães meio zangados a correrem na minha direção e eu, em vez de fugir, começasse a correr em direção a eles. 😊
Por um lado, acredito no foco do trabalho interno como Pessoa, para sermos melhores profissionais. Assim, o foco deverá estar no mais e melhor.
Por outro lado, tenho a convicção existencial de que já temos em nós uma inteligência, capacidade, intuição e criatividade fabulosas, que “apenas” estão soterradas por vieses, hábitos, rotinas, modelagens e experiências que toldam a nossa perceção e conexão com esse amor, alegria, paz, liberdade e motivação internos.
Ou seja, que é pela subtração e desapego do que não nos serve e do que não é realmente nosso que, de forma instintiva, conectamos com essas qualidades positivas.
Conhecer os mecanismos dos nossos desafios é meio caminho andado para os desmontar. E olhar de frente para tudo isso e observar com curiosidade e sem julgamento é uma tarefa… trabalhosa, vamos colocar assim. 😊
Implica um poder pessoal, que assume a forma de um Soft Power.

SOFT POWER PARA UM MUNDO DURO
Nas relações internacionais, o Soft Power (Poder Suave) é a capacidade de um estado influenciar o comportamento ou os interesses de outros atores internacionais através da atração e persuasão, em vez da coerção ou do pagamento.
Cunhado pelo cientista político Joseph Nye Jr. na década de 1990, na sua obra Bound to Lead: The Changing Nature of American Power, é diferente do Hard Power (força militar ou sanções económicas).
O Soft Power atua “conquistando corações e mentes”. 😊
Baseia-se principalmente na cultura (quando é atraente), nos valores políticos (quando são aplicados coerentemente), nas políticas externas (quando vistas como legítimas), e nos recursos económicos, intelectuais, de inovação, sustentabilidade e ética.
Exemplos: a exportação de filmes de Hollywood, música K-pop, animes japoneses criam uma imagem positiva do país de origem; programas de intercâmbio e parcerias económicas, académicas, científicas, governance, media e negócios são outros exemplos.
Lá fora está bravo, Hugo! 😊
E cá dentro – de ti mesmo, no teu trabalho, equipa e organização, é o “Texas”. A nossa tendência é reagir à velocidade, caos e incerteza com igual rapidez. E infelizmente muitas vezes, com igual caos e precipitação.
A questão é que esta velocidade, acompanhada de rigidez e receio, tende a focar-se apenas nos processos.
Mas a segurança, firmeza, assertividade e transparência necessárias estão ausentes na gestão e cuidado das emoções e relações profissionais que estão umbilicalmente ligadas ao trabalho, inovação, produtividade e resultados.
O Soft Power em organizações refere-se à capacidade de influenciar e moldar as preferências de outros através da atração e persuasão humanista, ética e do dar e receber valor com impacto, em vez de coação (medo) ou recompensas financeiras (suborno).
O poder suave baseia-se em dimensões intangíveis, mas impactantes ao nível dos sentimentos, emoções e mindsets:
- Cultura e Valores: Uma cultura organizacional forte e ética atrai talentos e gera uma lealdade natural;
- Visão Inspiradora: Líderes que comunicam o “porquê” das escolhas/decisões/tarefas conseguem um compromisso voluntário maior e mais eficaz do que com ordens diretas;
- Inteligência e Agilidade Emocional (EAQ): Empatia e autogestão emocional permitem que líderes e profissionais mantenham a coesão da equipa em momentos de crise;
- Reputação e Credibilidade: Construídas através da competência consistente e do cumprimento de promessas.
PROS & CONS
As organizações olham para o processo de retenção de talento como uma espécie de “fidelização”. Claro que existe uma relação de troca direta. Infelizmente baseia-se quase exclusivamente na recompensa e na “vigilância”.
A Lealdade é diferente.
É estabelecer um compromisso entre duas ou mais partes que são livres, mas que escolhem estar juntas. Porque essa relação os complementa, evoluciona, robustece de forma equilibrada, saudável e em win-win.
A fidelidade é baseada numa troca, a lealdade numa escolha.
Organizações emocionalmente seguras são curadoras da geração e partilha de ideias criativas e menos óbvias. A inteligência coletiva manifesta-se porque existem capacitação, ferramentas, cerimónias e artefactos que nos tornam pares ao nível do potencial do contributo, independentemente da nossa posição na cadeia alimentar organizacional. 😊
Obviamente o Soft Power implica que alguns pressupostos estejam presentes. Inteligência Emocional, Maturidade, Transparência são ótimos pontos de partida.
É também necessário um desmame 😊 da veneração e obediência às máscaras, estruturas e sinais de sucesso que foram construídos a nível profissional (liderança e colaboradores) e organizacionais (cultura, sucesso e resultados).
O Soft Power pode ser percecionado como indecisão em ambientes organizacionais altamente competitivos. Pode também “soltar” a ambiguidade, que choca com a rigidez de processos e microgestão.
Também é verdade que pode ser menos eficaz quando decisões rápidas e prescritivas são exigidas, dou isso de barato.
SOFT POWER É UM SINAL DE INTELECTO
A inteligência é a faculdade biológica e psíquica voltada para a resolução de problemas e adaptação ao meio. O foco é a funcionalidade, rapidez de raciocínio, planeamento e aprendizagem com a experiência. Abrange processos imediatos e práticos.
O intelecto é a dimensão que emana da conexão corpo-mente-espírito, que lida com o abstrato, a exploração criativa e pensamento crítico. Tem como natureza a compreensão profunda, a contemplação e a busca pela verdade. É a potência da alma que alcança princípios universais.
As funções e processos organizacionais estão desenhados para resolver e adaptar. Isso vem de uma base biológica e genética muito antiga sobre como lidamos com as recompensas e ameaças. E por isso as ações principais são manipular e ajustar. São inteligentes.
A questão é que este tipo de inteligência não se dá bem com o caos e mundo líquido em vivemos, nem com as nossas aspirações e desafios como profissionais e organizações.
Sinto que é importante redesenhar as nossas organizações – Desenvolvimento de Líderes e Profissionais, Transformação e Organizacional e Cultura e Workflows, para um paradigma onde o nosso papel profissional se foca muito mais em olhar, sentir, ver e escutar, interpretar e criar/decidir. Para seremos Clarividentes.
A base que sustenta isto são os nossos princípios, valores, escolhas e motivação, de forma a conseguirmos ser produtivos e obter lucros através da nossa ambição moral e ética.

CODA
Considero-me um bom scout. 😊 (André Villas-Boas, Francesco Farioli e FC Porto, wink, wink).
No meu percurso desportivo como atleta, treinador e team manager, reconheci muito potencial de alguns colegas e atletas de vários escalões, que aparentemente não estavam a “entregar” no agora. Mas que tinham tanto para entregar no futuro.
A mesma coisa acontece nos projetos da KNOWMAD. Surgem o que denomino de Revelações da Época da Liga PRO ORG (Liga dos Profissionais das Organizações). 😊
É malta que é apenas reconhecida pela forma como “está” agora e pelo que mostra/consegue mostrar, e não pelo profissional que realmente é (ou poderá ser).
Temos o profissional graçolas, mas que diante de um canvas, post-its e marcadores, e sentindo que há espaço para que outras facetas se manifestem, nos surpreende com ideias, insights e partilhas criativas, maduras e que causam gravitas.
É a especialista que está sempre calada, mas superatenta e em apenas 5 frases durante um dia nos põe a pensar de uma forma diferente.
É o operacional que coloca uma questão estratégica disruptiva, que funciona como um semáforo vermelho no percurso de pensamento e raciocínio habituais de líderes e managers.
Confesso que esta minha visão já me trouxe dissabores, pois muitas vezes esta minha capacidade de ver as pessoas como são faz-me ignorar algumas coisas fraturantes sobre como elas estão e fazem.
Mas como sou teimoso… 😊
Soft Power é sermos owners e designers do Efeito Pygmalion profissional.
Eu sei que ternos a capacidade de reconhecer o nosso potencial e o dos outros. E torná-lo explícito. Isso é diferente do que alimentar expetativas.
É alimentar esperança, potencial, verdade, possibilidade.
Tudo isso está dentro de nós, mas muitas vezes submerso pelo dia-a-dia profissional, prazos, conflitos, má comunicação, maus critérios de decisão e prioridades, a estanquicidade de processos.
Partilhar, como líderes, colegas de equipa, clientes, o potencial e resultados que vemos e recebemos – e sermos os melhores coaches e mentores informais para as primeiras, e os melhores feedbackers 😊 das segundas, é seminal para uma cultura evolutiva.
As pessoas de que te rodeiam determinam, em parte, os teus resultados profissionais. Mas não a sua totalidade, se tu própri@ conseguires trabalhar para ser essa pessoa com Soft Power para ti e para os outros, na tua equipa e organização.
Se te rodeares de pessoas que profissionalmente acreditam que és capaz, que te encorajam a ir atrás do que queres e te ajudam a perceber o que precisas, certamente te irás elevar até ao nível desse estímulo.
Se te rodeares de pessoas que te desvalorizam, que troçam das tuas aspirações, que te dizem para apenas seres realista, irás alinhar-te com o nível desse feedback.
O teu círculo externo cria a tua realidade. O teu mundo interior também. Escolhe de forma sábia o que fazer para trazer clareza, verdade e leveza a ambos.
Soft Power é encontrares a tua Voz e assim ajudares os Outros a encontrarem a sua.
Obrigado, Abraço e Fica Bem,
H