Upskilling e Reskilling (Parte 1) – As Competências Invisíveis

Upskilling e Reskilling (Parte 1) – As Competências Invisíveis

Upskilling e Reskilling (Parte 1) – As Competências Invisíveis

1920 1280 Hugo Gonçalves

—  DAN MILLMAN

Universo. Um dos livros mais intrigantes que estou a ler neste momento é História Secreta do Universo, escrito por Jonathan Black. Sendo algo denso, não na leitura, mas sim no peso da História e reflexões que apresenta, o Jonathan exibe uma visão alternativa da história do mundo e da humanidade ao cruzar filosofia, espiritualidade, mitologia, tradições esotéricas e ciência moderna. É cá dos meus! 😊

A obra afasta-se de uma narrativa histórica e científica convencional para explorar a possibilidade de a realidade ser muito mais espiritual, misteriosa e interligada do que a visão puramente materialista (científica) defende. O maravilhoso deste livro é que estes temas são desenvolvidos através da partilha de histórias, crenças, valores e episódios menos conhecidos e muito surpreendentes de cientistas que normalmente associamos a uma ciência pura, objetiva e determinista.

O autor foca-se em como o misticismo, a imaginação, o génio e a loucura se cruzaram na vida e nas descobertas de grandes pensadores modernos -desde cientistas conceituados como Marie Curie e Albert Einstein até aos arquitetos da inteligência artificial e figuras como Carl Jung e Hilma af Klint.

Mostra como as descobertas da física moderna e a ciência contemporânea começam a aproximar-se de conceitos espirituais e de ideias que já eram familiares às antigas tradições iniciáticas e ancestrais. Explora de que forma estamos ligados numa perspetiva que a ciência clássica considerava impossível. Debate o aparecimento de novas inteligências ao nosso redor -sejam elas “divinas”, humanas ou potencialmente perigosas, ligadas ao avanço tecnológico.

É uma obra sobre o Universo. Como costumo dizer, o futuro é ancestral e subtil. 😊


Presidentes e Distopias.
A semana passada passei uns dias sabáticos fora de casa, aproveitando para facilitar um workshop online e para utilizar o resto do tempo para colocar as leituras, a escrita e andar descalço na relva e na praia em dia. 😊

Como não tenho TV em casa, obviamente quando me apanho em alojamentos locais e hotéis, faço grandes maratonas a ver séries e filmes, muitas vezes ao mesmo tempo, em constante zapping. 😊

Detectei um padrão, que não sei se foi alguma mensagem subliminar ou uma escolha de programação deliberada dos Hollywood, Star Channel/Fox e AXN da vida.

Durante 3 dias consecutivos, estes canais exibiram filmes sobre presidentes dos EUA, nos quais obviamente a história era sobre a sua coragem, carácter, determinação, princípios e valores. E também foram transmitidos filmes da temática “Terminator” e afins, ou seja, sobre os desafios que poderemos enfrentar se não abrirmos bem a pestana e continuarmos a fazer outsourcing a entidades sintéticas daquilo que mais profundamente define a nossa essência como Pessoas e nos liga como Seres Humanos.

Se calhar eram os meus messengers a dar-me algum recado. 😊

Espiritualidade e Ciência, Carácter e Vileza, Pensar e Agir, Pessoas e Tecnologia. Niels Bohr definiu a experiência humana e a respetiva realidade como produtos do divino da complementaridade. Isto também se aplica a contextos concretos no Desenvolvimento de Pessoas e Organizações, como por exemplo…

O Upskilling e o Reskilling.

Upskilling (Aperfeiçoamento): Atualizar e aprofundar competências na mesma área de atuação para melhorar o desempenho no cargo atual ou preparar o colaborador para progressões lineares na carreira.

Reskilling (Requalificação em Upgrade): Adquirir novas competências para assumir funções totalmente diferentes ou migrar para uma nova área de negócio, promovendo a mobilidade interna ou mudança de carreira, ou criando capacitação para dar resposta ao que de diferente as Pessoas e Mundo necessitam do nosso trabalho, produtos e serviços.

A conversa sobre IA e trabalho está prisioneira numa interrogação equivocada: que empregos vão desaparecer? A IA não substitui cargos. Substitui tarefas e, eventualmente, critérios de decisão. E quando as tarefas mudam, as competências que passam a contar raramente estão no plano de desenvolvimento individual ou na matriz de competências.

Chamo-lhes Competências Invisíveis: o trabalho real já as exige, mas nenhuma descrição de funções as nomeia. Na KNOWMAD VENTURES, e através da Engenharia Organizacional, vejo-as como sendo a manifestação de três galáxias multipotenciadoras.

Durante décadas, desenvolver profissionais significou acrescentar: mais conhecimento técnico, mais ferramentas, mais certificações. A IA inverte essa lógica. Quando uma máquina sabe mais, lê mais depressa e escreve mais rápido do que qualquer um de nós, acumular deixa de ser vantagem. O que passa a distinguir um profissional não é o que sabe, mas a forma como pensa, decide e se relaciona com o que não sabe.

É uma mudança desconfortável, porque toca na identidade e não apenas nas competências. Pede discernimento onde antes bastava execução, humildade onde antes bastava experiência e foco num mundo desenhado para o dispersar. São capacidades interiores mais subtis, quase sempre ausentes dos planos de treino. São também aquelas que a máquina não consegue desenvolver por nós.

Já escrevi de forma abundante sobre o papel da Autoliderança e Soberania Pessoal na nossa competência, eficácia e eficiência como profissionais. Sobre termos muito bem claro e nítido qual o nosso radar de responsabilidade, de influência e de aceitação. E sobre o que isso nos pede ao nível de uma transformação de mindsets e heartsets.

Só essa presença e ownsership de nós mesmos nos poderão capacitar para sermos eficazes e capazes nas seguintes responsabilidades:


AVALIAR O QUE A MÁQUINA PRODUZ.
Quando a IA entrega uma primeira versão em segundos, o valor desloca-se para Quem sabe dizer se está certa. Rever, duvidar, imaginar e assumir a responsabilidade pelo resultado final é uma competência, e treina-se.

FORMULAR O PROBLEMA CERTO. Resolver é cada vez mais barato. Definir bem o problema é cada vez mais raro, e é aí que se ganha ou se perde tudo o resto.

DECIDIR EM INCERTEZA. Especular cenários, calibrar a confiança nas próprias previsões e agir sem informação completa. É o núcleo da liderança atual.

DESAPRENDER. Largar métodos, rotinas e partes da identidade profissional que deixaram de servir. É mais emocional do que técnico, e por isso quase nunca entra nos planos de desenvolvimento.PROTEGER A ATENÇÃO. Num ambiente de interrupção permanente, o foco profundo é uma vantagem de desempenho, não só uma questão de bem-estar.

Perante cada vaga tecnológica, a reação habitual das organizações é a mesma: comprar ferramentas e formar pessoas. Mas a estrutura em que essas pessoas trabalham fica mais ou menos intacta. Ficam as mesmas funções, os mesmos circuitos de aprovação e as mesmas decisões presas nos mesmos níveis. O resultado é previsível:

Profissionais mais capazes dentro de um ecossistema que não os deixa usar o que aprenderam. É só trengo! 😊

A IA torna este desajuste impossível de ignorar, porque altera o trabalho por dentro, tarefa a tarefa. Transformar uma organização deixa de ser redesenhar o organograma e passa a ser redesenhar o trabalho em si: o que se faz, quem decide, como se cria valor e onde fica o conhecimento quando as pessoas mudam. São competências de arquitetura, raramente atribuídas a alguém e quase nunca desenvolvidas de forma deliberada.

REDESENHAR O TRABALHO TAREFA A TAREFA. Decidir o que automatizar, o que aumentar com IA e o que manter humano exige uma competência que poucos líderes e responsáveis de Pessoas e Cultura já possuem.

COLOCAR AS DECISÕES NO NÍVEL CERTO. Muitas organizações decidem devagar porque decidem no “sítio” errado. Descentralizar exige confiança, critérios e pessoas preparadas para assumir risco.

PROTEGER A MEMÓRIA ORGANIZACIONAL. A geração mais experiente leva consigo know-how que não está escrito em lado nenhum. E também princípios, valores, brio e coragem que de todo estão escritos em lado nenhum. São exemplos e vivências! Capturá-los e passar o exemplo antes das saídas é uma decisão estratégica, não administrativa.

REQUALIFICAR PARA O LADO, NÃO SÓ PARA CIMA. Do back-office para a qualidade de dados, da operação para a supervisão de automação. É mais realista e mais barato do que transformar todas as pessoas em gestores e colegas de agentes de IA.

Nenhuma transformação sobrevive ao dia a dia se não se transformar também a forma como as pessoas trabalham juntas. A cultura não está nos valores afixados na parede. Está no que se repete: como se prepara uma reunião, como se trata um erro, quem é ouvido quando há uma ideia nova. É aí que as boas intenções se consolidam ou se dissolvem.

A chegada de agentes de IA às equipas acrescenta uma camada nova a esta dinâmica. Os workflows deixam de ser só entre pessoas e passam a incluir sistemas híbridos que executam, sugerem e decidem.

Inovar, neste contexto, não é lançar mais iniciativas. É criar hábitos de aprender, de experimentar com critério, de saber parar e de coordenar humanos e máquinas com a mesma clareza, e de forma customizada. Cada um no seu sítio. 😊


APRENDER COM O QUE SE FAZ
. After action reviews, pré-mortems e retrospetivas fora do mundo ágil. Uma organização que não analisa as suas decisões repete os seus erros com maior eficiência.

EXPERIMENTAR E SABER PARAR. A maioria das organizações sabe lançar iniciativas. Poucas sabem encerrá-las. Pilotos com critérios de paragem são uma competência cultural.

COORDENAR PESSOAS E AGENTES. Delegar a agentes de IA é gestão: especificar, decompor, rever, auditar. Os workflows têm de ser redesenhados para isso, não apenas “equipados” com ferramentas. São precisos também critérios, accountability para pessoas e máquinas, e sistemas de override, no caso da IA já ir lançada numa execução, decisão ou solução que não é a melhor.

TRADUZIR ENTRE DISCIPLINAS. Quem fala “negócio” com a tecnologia e “tecnologia” com o negócio são apenas alguns poucos polímatas e quase sempre são subvalorizados.

Nenhuma destas competências vive só numa galáxia. É todo um Cosmos.

Formar alguém para decidir, quando a estrutura não o deixa decidir, gera frustração e não resultado.

Pedir partilha de conhecimento, quando a cultura premeia quem guarda informação, também não funciona.

Por isso, se quisermos mesmo a sério e de forma honesta desenvolver as nossas Pessoas nestas competências invisíveis, não é pelo catálogo de formação, ou cursos, ou oradores que devemos começar.

Começamos pelo trabalho real: pegamos numa equipa, listamos as suas tarefas e decisões e perguntamos o que está a mudar em cada uma. É aí que as competências invisíveis aparecem -e é aí que se percebe se a resposta é Capacitação (treino), Transformação (redesenho) ou Cultura (interações).


Certamente, tal como eu, conheces profissionais superinteligentes. Com imenso sucesso nas suas respetivas áreas, capazes das maiores façanhas técnicas, intelectuais e de resultados, e que dominam o conhecimento de uma forma que parece divina.

Mas muitas dessas pessoas definem-se pelo que fazem e pelo que têm e não por quem realmente São e pela vida e escolhas que realmente lhes fariam sentido.

Algumas também se sentem entitled – um direito garantido (por lei, regra ou status) ou a crença arrogante de que algo lhe é devido sem esforço. Quando a única verdade é que todos merecemos – deserve refere-se a ser digno de algo por esforço, valor ou ações.

Não consideram a empatia e a escuta ativa uma capacidade, mas uma fragilidade. Olham para a criatividade como sendo uma fuga do único caminho que acham que é o certo. Focam-se na economia da extração, em vez da economia da imaginação e criação do valor.


Tendo em conta tudo isto, se calhar precisamos de novos critérios, novo empowerment, novos redesenhos organizacionais.

E talvez éticas mais ancestrais e princípios e valores mais perenes. Que estão validados por milhares de anos de experiência como seres humanos e civilizacional.


Então para que profissionalmente e organizacionalmente possamos materializar os Upskill e Reskill de que realmente precisamos:

UPSKILL E RESKILL = melhor combinação (qualidades como pessoas + profissionais) x (recursos + workflows adequados) x (liderança e critérios humanistas e claros) x (empatia e criatividade).

Para a melhor identificação e resolução de pains e criação de valor impactado para as Pessoas e o Mundo.

Upskilling e Reskilling.

Em nós mesmos.

Esta é que é a Verdadeira Inteligência!


Obrigado, Abraço e Fica Bem, H

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