Protopia Organizacional (Parte 1) – O Caminho do Meio

Protopia Organizacional (Parte 1) – O Caminho do Meio

Protopia Organizacional (Parte 1) – O Caminho do Meio

1018 620 Hugo Gonçalves

—  KEVIN KELLY

SÆGLÓPUR é o nome de uma das minhas músicas favoritas, de um grupo pelo qual também tenho bastante admiração – os Sigur Rós. Com estes tipos nunca se sabe, visto que eles às vezes cantam em hopelandic 😊 (dialeto inventado por eles), mas é consensual que a palavra significa “Perdid@ no Mar”.

É uma metáfora poderosa sobre estar à deriva, tanto física quanto emocionalmente.

Eu, que gosto do transcendente psicadélico tranquilo (eu sei, sou um menino😊), tive a oportunidade de assistir a um concerto deles no Primavera Sound no Porto, diria que em 2016.

Nesta canção em particular, 35 mil pessoas estavam em completo silêncio, maravilhadas com o que estavam a escutar e ver à sua frente, ao mesmo tempo quiçá expetantes e surpresas pelo que estavam a sentir e a pensar no íntimo de cada um.

Foi sem dúvida a materialização em canção de todo um processo interior que existe dentro de nós, com uma aspiração central – paz interior e um sentido de pertença.

Nos anos 2010’s a revista WIRED era uma das minhas publicações preferidas. Abrangendo uma vasta gama de temas, foi das primeiras revistas digitais a proporcionar uma visão de ecossistema entre pessoas e tecnologia, produtos e negócios, cultura e política.

Kevin Kelly (nascido em 1952) é o seu editor fundador. Ele também é escritor, fotógrafo, ambientalista e estudioso da cultura asiática e digital.

Do alto das suas barbas e cara de quem está bem com a vida, em 2011 ele definiu o conceito de PROTOPIA.


O termo gira em torno da proposta de encontrarmos um caminho do meio entre utopia e distopia, podendo assim vislumbrar visões de futuro mais realistas e conscientes. E que, afinal, tudo é constituído de “coisas boas” e também “menos boas”. Chama-se Realidade. 😊

Enquanto a utopia descreve um “não-lugar”, o conceito de distopia usa o prefixo do latim “dys”, que significa “mau”.

A utopia foi uma ideia proposta por Thomas More, como um sendo lugar inexistente onde tudo funciona perfeitamente bem. A distopia é o completo oposto, o que, no fim das contas, faz com que utopia e distopia sejam apenas lados diferentes da mesma moeda. E não dois caminhos completamente opostos, como se costuma pensar.


Foi isso que Kelly quis dizer com o termo Protopia, para se poder escapar a essa dicotomia que muito se adequa à forma como nossa cultura ocidental organiza as coisas (bem e mal, céu e inferno, preto e branco etc.). Partilho as palavras de quem sabe (o Kelly):

Logo, saber olhar e observar é fundamental. E isso não se consegue fazer na máquina de lavar organizacional.

O conceito de Protopia descreve uma visão realista e incremental do futuro, através de um processo de pequenos e persistentes refinamentos, em vez de revoluções maciças, impulsionado por “mil pequenos empurrões” em direção à melhoria contínua.

O Coaching, o Design Thinking, o Agile, o Kaizen, e todas as abordagens similares são filosofias e práticas organizacionais que dão corpo às seguintes ideias chave:

– Reconhecer o Ecossistema.

– Conectar com as Aspirações e Problemas a Resolver.

– Incluir e Potenciar o contributo de Todos.

– Dar Espaço e Tempo para este contributo ser o resultado da melhor performance de cada Um.

– Sentir/Perceber o que acontece.

– E depois Repeat! 😊


Sou um sortudo, pois tenho a possibilidade de trabalhar com um pé dentro e outro fora das organizações. Com o mundo corporativo, mas não no mundo corporativo.

Isto dá conhecimento, experiência e riqueza de imensas abordagens e ferramentas, enquanto proporciona o espaço adequado para a observação, neutralidade e criatividade.

Para mim e outros colegas consultores, trainers, facilitadores, é fácil indicar, de um lugar “satélite”, apenas parcialmente exposto aos objetivos, processos, cultura e formas de interagir, e respetivos stress e pressão o que é adequado fazer.

Por isso é que dou tanto valor ao Coaching e Facilitação, como abordagens profissionais. São escadas e alavancas de autonomia, evolução e descoberta alinhadas com resultados e performance dos profissionais, onde estes é que são os verdadeiros consultores internos.


Eu não formo ninguém 😊, eu sou parceiro e no limite um guia de uma viagem profissional e organizacional. Onde primeiro se visitam os territórios do que é e do que pode ser, e só depois se desenham os mapas e caminhos.

Este trabalho é super fixe, mas algo complexo e desafiante. Porque eu e os meus colegas temos de, às vezes tendo apenas algumas horas para isso:

Tudo através da escrita, da escuta ativa e das conversas. E dos meus amigoscanvas e post-its. 😊


Muitas vezes, o que vejo são profissionais e organizações a viverem na utopia da sua missão, visão e valores, dos teambuildings.

Acontece que tudo isso depois tem de passar por um “pequeno” crivo – a realidade. Que se materializa com a consciência do que é importante (Awareness), do que é fundamental começar, continuar e deixar de fazer (Morphing) e das ações, comportamentos, tarefas, acionáveis que irão dar corpo aos passos anteriores (Being).

Outr@s (normalmente são as mesm@s 😊) vejo-os a terem um dia-a-dia complicado, onde parece que quanto mais se faz, mais se conversa, mais processos se criam, menos bem correm as coisas. 😊


Revejo muito este conceito da Protopia no meu devaneio que calibra as minhas atividades que é a Engenharia Organizacional e dos projetos da KNOWMAD.

Esta é um cosmos organizacional com 3 galáxias (só me meto no que conheço) onde a Evolução das Pessoas, a Transformação Organizacional e a Cultura e Fluxos de Trabalho Ágeis funcionam sobre o princípio da gravitas:

São massas críticas, criativas e de performance entrelaçadas, regidas por um conjunto de leis materiais, quânticas e invisíveis, onde a evolução e transformação numa delas dá origem a transformações nas outras.


Todos estamos a querer imaginar como vai ser o trabalho, os profissionais, as organizações, do futuro. Existe aqui um pequeno detalhe;

“O” futuro não existe e apenas temos acesso (a não ser que sejas um ser mediúnico e místico😊) a especulações sobre quais os possíveis futuros (plural).

Futuros são consequência de caminhos e de escolhas, não de design e planos. Implica virar a nossa atenção para progresso e nem tanto para o objetivo. Implica saber navegar no caos e ordem, implica ter, como organização, a consistência e agilidade adequadas para podermos ser organizações líquidas.

 

Estava à procura de uma definição de pressuposto organizacional que pudesse fazer pandã com a dimensão profissional e organizacional. Mas logo no início apareceu um conceito que já diz tudo, mesmo que às vezes não se saiba o que realmente significa:

Governance 😊


Deixo a ti e à tua organização a definição do que isto pode significar para vocês, mas para o âmbito da Protopia, os pressupostos são os seguintes (este conteúdo contém pressupostos que podem ferir a sustentabilidade de alguns hábitos, mindsets e dogmas): 😊

– Progresso incremental – O progresso é algo lento, subtil e cumulativo, não sendo totalmente visível no curto prazo;

– Otimismo realista – Reconhece os problemas existentes, mas acredita na melhoria a longo prazo, rejeitando tanto os ideais utópicos como o desespero distópico;

– Processo >> destino – O foco está no processo contínuo de se tornar melhor, não em alcançar um estado perfeito e estático;

– Resolução de problemas através de iteração – Novos problemas são gerados por soluções para os antigos, mas essa dinâmica leva a uma trajetória positiva líquida.

– “Mil empurrões minúsculos” – Os futuros são construídos através de pequenas mudanças estratégicas em sistemas, comportamentos e tecnologias, não de grandes planos.


Esta abordagem à liderança, à entrega de valor e ao progresso enfatiza um otimismo fundamentado, um foco na viagem em vez de um destino perfeito. Kelly (e outr@s mais tarde) falam de um “ser” que de facto parece que vem de um livre ou filme distópico/utópico. Líder Protopian@!


Do que fui lendo, os “requisitos” para este novo arquétipo poder ser bem-sucedido numa entrevista de emprego seriam os seguintes:

– Abraçar a iteração – Foco e Energia em fazer pequenos ajustes estratégicos, em vez de esperar por um plano perfeito.

– Cultivar o otimismo estratégico – Manter uma perspectiva positiva que reconheça os desafios, mas confie na capacidade da humanidade de melhorar ao longo do tempo.

– Entender a visão longa – Olhat para o progresso histórico para ver o impacto composto de pequenas mudanças, fomentando um sentimento de otimismo sobre o futuro. Estou a falar de jogar o Jogo Infinito.

– Promova uma cultura de iteração – Incentivar melhorias constantes e pequenas em todos os aspetos de uma organização ou sociedade.– Estar enraizado na realidade – Construir visões de futuro a partir das realidades atuais, reconhecendo a complexidade e a imperfeição.

O refrão “Sæglópur á lífi, kominn heim” (Perdido no mar, vivo, voltando para casa) é uma declaração de esperança e redenção.

Qualidades e traços que as organizações (ou os respetivos agentes AI) não procuram no seu talento interno e nos processos de recrutamento 😊, mas que provavelmente serão os estados de espírito, mindsets e heartsets que irão levar ao florescimento e prosperidade profissionais e organizacionais.


E porque é que isto é importante para ti e a tua organização?

Porque se formos espertos e jogarmos bem este jogo talvez consigamos, de facto, caminhar no sentido da utopia (sem nunca lá chegar) e escapar à distopia (sem nunca evitar umas chamuscadelas).

Para que profissionais se desenvolvam e as organizações possa obter um lucro com propósito. E no limite, até podemos deixar de precisar de trabalhar e ter ainda mais recursos materiais, mentais e emocionais para alimentar toda a pirâmide de Maslow.


Mas isto, se calhar, é uma bela de uma Protopia… 😊


Obrigado, Abraço e Fica Bem,

H

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