Comunial

Comunial

1920 1315 Hugo Gonçalves

—  KATHERINE MANSFIELD

Luzes. Algo que acho muito curioso quando viajo de avião durante a noite é o padrão das luzes. Não falo das silhuetas luminosas características de cada cidade, mas de algo não tão óbvio, mas que vejo como metáfora.

Em Portugal, é quase impossível atravessar mais de 30 segundos sem existir, para além das estradas, luzes de aldeias, casas, lugares, vilas, cidades. Não existem manchas de escuridão. As luzes são dispersas, mas ao mesmo tempo muito próximas, com diferentes intensidades.

Por outro lado, quando atravesso França, Alemanha, Países Baixos e algumas partes de Espanha, olhando para baixo apenas vejo um mar de escuridão. E de repente, as aldeias, casas, lugares, vilas, cidades surgem por magia. Numa disposição mais próxima, organizada, definida, sem grandes “ovelhas negras” a saírem fora desses cordões e manchas de luzes. 😊

Parece-me uma boa metáfora sobre a forma como somos como povos. A Europa Central e do Norte, muito comunitária, muito próxima, sujeita a outros rigores e experiências que felizmente não passamos em séculos de história – imensas guerras, meteorologia inclemente, e outras dificuldades civilizacionais. Aqui pelo burgo, tudo mais espalhado e com a devida distância dos vizinhos 😊. Por perto, mas cada um no seu sítio, onde existem clarões e lampejos de luzes contínuos, mas não as supernovas concentradas que vejo nos países que referi.

Se calhar é uma questão cultural. Ou tem apenas a ver com as diferentes abordagens a nível do ordenamento urbano e do território. O que reforça a hipótese da questão cultural. Hahahahah😊


Manto
. Se já és uma pessoa bem vivida 😊, certamente te lembras de ir a alguma feira, monumento ou local de visita/turismo onde existiam uns senhores/senhoras com aquelas máquinas fotográficas antigas de madeira, com um fole e tripé, e nos quais os fotógrafos se cobriam com uns mantos para poderem focar as lentes, e proporcionar a escuridão que a tecnologia da altura necessitava para se tirarem boas fotos.

Acho que isso está em voga de novo. Outro dia estava na praia a observar o ecossistema em redor e reparei que só no meu raio de visão estavam 6 pessoas estendidas na toalha, com peças de roupa por cima da cabeça, desde toalhas, blusas, calções, t-shirts, saias e outras que nem sei o que eram 😊, com a cabeça completamente coberta a consultar/interagir com o telemóvel.

Verdadeiras burkas digitais. Hahahaha! 😊

Nesse dia em específico, o dia estava muito bonito, a praia serena, o mar com a dose certa de ondas e acalmia e a água relativamente agradável. As pessoas eram giras 😊. Estava mesmo a oferecer momentos mais orgânicos e eventualmente mais nutritivos do que aqueles que estavam a ser debitados pelos bits e bytes da mencionada burka.


Estes dois prólogos referem-se a episódios do meu quotidiano (mental em alguns casos 😊), onde parece que dois estados e dimensões que podem e devem existir de forma simultânea, continuam eternamente separados e polarizados:

A nossa Individualidade e respetivos direitos e responsabilidades e a Interdependência, com os também respetivos sincronismos e âmbitos/limites.

 

Adj. Relativo a comunhão. (Do lat. communio). Refere-se àquilo que tem ligação com comunhão, partilha ou participação coletiva, união e forte sentimento de pertença.

No contexto das organizações, o conceito comunial refere-se à transformação de um ambiente corporativo focado apenas em processos numa verdadeira comunidade de pessoas.

Não se trata apenas de ter regras “comunais” (bens partilhados), mas sim de criar um sentimento de consonância entre os colaboradores. O espírito comunial manifesta-se nas organizações através dos seguintes pilares:

  • Identidade Coletiva: Os colaboradores deixam de ser apenas recursos. Eles passam a sentir que partilham uma missão e valores de forma genuína com a empresa.
  • Segurança Psicológica: Existe um ambiente de confiança mútua onde as pessoas se sentem seguras para partilhar ideias, vulnerabilidades e apoiar-se mutuamente.
  • Diálogo Aberto: A comunicação organizacional não é apenas top-down (da chefia para a base). Ela funciona como uma verdadeira partilha de ideias onde todos têm voz.
  • Transparência Absoluta: O fluxo de dados serve para aproximar as equipas e eliminar barreiras ou desconfianças.
  • Conexões Orgânicas: Criação de grupos internos (seja para debater inovação ou para atividades sociais, como corridas e voluntariado). Estas dinâmicas geram laços que vão muito além das funções do dia a dia.

Para não confundir a aplicação prática de ambos os conceitos:

  • Abordagem Comunal: Foca-se na estrutura. Exemplo: O uso de espaços abertos (open spaces), cozinhas partilhadas e ferramentas de software comuns a todos.
  • Abordagem Comunial: Foca-se no vínculo. Exemplo: O sentimento de união, a entreajuda em momentos de crise interna e o orgulho coletivo em atingir uma meta conjunta.

A adoção de uma perspetiva comunial nas organizações é o motor que transforma estruturas rígidas em ecossistemas vivos. Quando uma empresa deixa de focar apenas no que é comunal (infraestrutura e recursos partilhados) e passa a investir no comunial (vínculos, comunhão de propósitos e segurança psicológica), liberta o verdadeiro potencial humano.

Abaixo, detalha-se como esta visão se interliga profundamente à evolução das pessoas, à transformação das empresas e à eficácia operacional.


EVOLUÇÃO DAS PESSOAS: Da Transação à Autorrealização

O modelo de trabalho tradicional assenta numa lógica transacional (tempo em troca de salário). O espírito comunial eleva esta relação para um nível de desenvolvimento mútuo.

  • Crescimento Baseado na Confiança: Em ambientes comuniais, o erro é visto como parte da aprendizagem e não como um gatilho para punição. Esta segurança psicológica permite que as pessoas assumam riscos intelectuais, acelerando o seu upskilling e reskilling.
  • Alinhamento de Identidade: O colaborador não executa apenas tarefas; ele evolui como indivíduo porque o seu propósito pessoal encontra eco na missão da organização. O trabalho ganha significado, o que reduz drasticamente o burnout e aumenta a retenção de talento.


TRANSFORMAÇÃO ORGANIZACIONAL E INOVAÇÃO: O Ecossistema Vivo

A verdadeira transformação organizacional não se faz mudando o organograma, mas sim transformando a mentalidade, heartsets e comportamentos. A inovação deixa de ser um departamento isolado (I&D) e passa a ser uma competência distribuída.

  • Inteligência Coletiva: A inovação disruptiva nasce na interseção de perspetivas diferentes. Quando existe comunhão (ligação genuína) entre áreas tradicionalmente opostas – como Engenharia e Marketing, as barreiras caem.
  • Agilidade Orgânica: Organizações comuniais adaptam-se mais rapidamente a crises ou mudanças de mercado. Como as pessoas confiam umas nas outras e partilham a mesma visão de futuro, a resistência à mudança diminui e a reestruturação de processos acontece de forma natural e fluida.


CULTURA DE COLABORAÇÃO E WORKFLOWS: A Fluidez Operacional

De nada serve desenhar fluxos de trabalho (workflows) perfeitos no papel se a cultura interna for competitiva ou selada. O espírito comunial funciona como a energia que faz as engrenagens operacionais funcionarem sem atrito.

  • Workflows sem Fronteiras: Em vez de transferências de tarefas burocráticas (handoffs) onde cada equipa se descarta da responsabilidade assim que envia um e-mail, os workflows comuniais baseiam-se na corresponsabilidade. O sucesso do projeto é de todos, do início ao fim.
  • Ferramentas Comunitárias: Softwares de gestão e comunicação (como Slack, Teams, Notion ou Jira) deixam de ser meros repositórios de tarefas (uso comunal) e passam a ser praças digitais de cocriação (uso comunial), onde o conhecimento é partilhado de forma aberta e generosa.

 

O conceito de organização comunial encontra o seu encaixe perfeito e metodológico na filosofia e nas práticas da Knowmad Ventures. Trabalha-se na interseção em que as ferramentas e os processos deixam de ser burocráticos e passam a ser focados no desenvolvimento evolutivo mútuo de pessoas e ecossistemas.

A visão comunial exige líderes que facilitem a evolução das equipas através da confiança e da segurança psicológica. Isto traduz-se na Liderança Evolutiva 720º. O modelo comunial desenvolve as pessoas desafiando o status quo, mas mantendo-as na sua zona de tolerância.

Para que a transformação e a inovação aconteçam de forma orgânica, a organização precisa de descentralizar o conhecimento e promover a inteligência coletiva. O Design Thinking e Critical Thinking & Solving podem ser utilizados não apenas para desenhar produtos, mas para conectar perspetivas diferentes dentro da empresa. Isto quebra os silos tradicionais e cria um ambiente de cocriação genuína (comunial). Cria uma experimentação protegida. A abordagem foca-se em libertar o potencial humano oculto, transformando ideias abstratas em soluções reais através de uma cultura onde errar faz parte do processo de aprendizagem e evolução.

É aqui que se operacionaliza a distinção entre o comunal e o comunial. Os fluxos de trabalho deixam de ser imposições mecânicas e passam a ser dinâmicas vivas. Agile, Management 3.0 e Sociocracia são abordagens que redesenham as estruturas organizacionais para algo mais horizontal, corresponsável e colaborativo – o organograma horizontal. Os workflows passam a assentar na corresponsabilidade e na transparência total. A cultura da empresa passa a funcionar como o ecossistema que suporta a agilidade de forma robusta e positiva. As ferramentas de colaboração digital e os rituais de equipa transformam-se em autênticas “praças digitais” de partilha e união comunitária.

Tenho-me dedicado a ler os artigos anteriores do blog.

Existe uma espécie de macrotemas que vão sendo o farol e a inspiração dos artigos ao longo de um ano específico, ou se quiseres, ao longo de uma época mais ou menos marcante. 

O primeiro foco era as ferramentas e metodologias. Em seguida, notei uma evolução para a integração entre pessoas e processos. Depois, seguiram os temas que são as dimensões chave das galáxias de atuação da Knowmad Ventures.

Depois muito Coaching, Design Thinking e Cultura. Depois a produtividade, depois a Autoliderança, Inteligência Emocional e o papel da Espiritualidade q.b. na performance humanista e nos resultados organizacionais.

Depois o Futuring, depois a navegação nas várias dimensões do que realmente acontece quando alguém – Pessoa, coloca quem é naquilo que faz – Profissional.

Ultimamente tenho voltado à Soberania Profissional e ao termos consciência do que realmente depende de nós, do que podemos influenciar e do que nos resta aceitar …ou ir embora.

E claro, os meus focos atuais da Ambição Moral, Protopias e Altruísmo Eficaz e como o trabalho, produtos e serviços e soluções podem ser, na realidade, o melhor antídoto, solução e forma de superar o que foi criado e implementado de menos bom e menos humanista pelo… trabalho, produtos e serviços e soluções.


Nesta nova season 😊 vou sair um pouco do telhado onde observo estas coisas todas que acontecem com os profissionais e organizações. E de onde olho para cima, tentando perscrutar o que se pode fazer de diferente.

Estar envolvido em vários projetos – como facilitador e consultor em workshops, iniciativas, projetos, em programas de Coaching e Mentoring, e em alguns casos com papéis informais e formais de advisor – leva-me bastante para o “terreno” e para um contacto muito efetivo com a realidade.


Mas o Caminho do Meio é a minha casa e sempre retorno a esse lugar, entre a terra (realidade dos profissionais e organizações) e o céu (ideias, sonhos, possibilidades).

Tornou-se muito importante para mim descer mais vezes do telhado, e contribuir para que os cordões de luzes e as várias aldeias, vilas, lugares, cidades profissionais e organizações possam estar ligados da forma mais eficaz e humanista, no que aos profissionais e organizações diz respeito.

Para que não exista tanta extensão de terreno na escuridão. E para que também não estejamos tão centrados nas nossas próprias luzes e assim acabemos por ofuscar os outros e claro, nós mesmos. 

Como Coach, Facilitador e Consultor Colaborativo, onde posso contribuir é em facilitar os processos de retirada do “manto” da máquina fotográfica, que nos dá uma imagem estática, sintética e não comunial da nossa realidade profissional e organizacional.

E assim podemos olhar para dentro, olhar à nossa volta e ver quem lá está, o que lá está, e o que podemos fazer com isso, no âmbito organizacional.


É mesmo importante abrir as pestanas, principalmente as de dentro 😊– Autoconsciência, Autorregulação Emocional, Automotivação.

Para realmente Ver os outros – Empatia, e reconhecer e imaginar como podemos colaborar – Colegas. E como podemos criar soluções para o que as Pessoas e Mundo realmente necessitam – Clientes.


Obrigado e Abraço,

H

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