Em algum lugar, alguma coisa incrível está à espera de ser descoberta
— CARL SAGAN
O Skilling (Up e Re) pede uma visão de galáxia, procurando o
Nexus Organizacional
Num workshop de Produtividade Profissional – estratégias, prioridades e planeamento, e execução em fluxo, eu e os participantes estávamos a ter uma conversa sobre os nossos talentos escondidos. Habilidades que temos, mas que nunca nos lembraríamos de utilizar em contexto profissional.
Surgiram muitas capacidades que no início pareciam laterais e não relacionadas. Com o decorrer da conversa, tornaram-se mais interessantes e em alguns casos, fulcrais.
No fim do dia, dei por mim a pensar que esta etapa civilizacional neste mundo líquido está agitada 😊, e em que tipo de áreas profissionais ou híbridas eu poderia sentir-me alinhado, no caso de uma disrupção profissional.
Sempre me imaginei a trabalhar numa FNAC, nas áreas dos livros ou da música. Assim, lia todos os livros que me apeteciam ao som de um bom vinil e poupava uns milhares de euros por ano.
Ser segurança/porteiro num local onde não se passa quase nada também é boa malha. Teria tempo para escrever e ler sem grandes interrupções. Existindo um jardim ou envolvente verde e bonita para eu poder fazer as rondas, melhor ainda. 😊
Carteiro também é top. Para além das caminhadas e passar o dia ao ar livre (com um bom casaco e calçado, estou na boa com o frio e chuva), cruzava-me com várias pessoas e vivia uma vida de bairro.
Jardineiro no Parque da Cidade do Porto também seria excelente. Ar puro, relva e terra para andar descalço, contacto com a natureza e com atividades que certamente são duras fisicamente, mas que trazem uma conexão e presença distintas de uma vida profissional citadina mais convencional.
Independentemente do valor salarial ou do tipo de dureza física que cada uma destas possibilidades poderia trazer, o que mais valorizo é o seu sincronismo com atividades, ambientes e conversas que me iriam nutrir bastante como Pessoa.
COMPETÊNCIAS INVISÍVEIS
Já aqui manifestei a vontade de me envolver mais com a Ambição Moral, a Protopia e qualquer outra abordagem em que o trabalho, experiência, conhecimento e talentos profissionais sejam utilizados para, de facto, termos uma vida melhor.
Não apenas financeira, mas também mental, emocional e aspiracional.
As Competências Invisíveis são as capacidades que o trabalho real já exige, mas que nenhum cargo, modelo de competências ou catálogo de formação nomeia. Os temas óbvios – IA genérica, literacia de dados, soft skills, liderança – estão saturados. O valor está nas competências que poucos nomeiam e que começam a separar quem se adapta de quem fica para trás. Alguns exemplos:
Meta-aprendizagem (Learnability): Aprender a aprender. Identificar os próprios bloqueios de aprendizagem, desconstruir conceitos complexos rapidamente e esquecer hábitos antigos que já não servem (unlearning).
Agilidade Cognitiva: Flexibilidade mental para alternar entre diferentes modos de pensar (analítico, criativo, estratégico) dependendo do problema, sem ficar preso a dogmas ou metodologias obsoletas.
Resiliência e Tolerância à Frustração: Aceitar falhar repetidamente ao tentar dominar uma nova área. A capacidade de tolerar o desconforto de “não saber” é uma competência invisível crítica.
Curiosidade Direcionada: Não é apenas curiosidade dispersa, mas sim a busca intencional por preencher lacunas de conhecimento que geram valor real para a carreira ou para o negócio.
Na era da IA, o que se torna escasso é o que é SER Humano: explorar, mapear, avaliar, formular, desaprender, ensinar, coordenar e dar sentido.
Num exercício meu de imaginação “mística” (sem aditivos 😊), se calhar até faz algum sentido ligar os princípios da física quântica e da espiritualidade ao desenvolvimento profissional. Significa mudar a forma como se lidera, se tomam decisões, se olham para a nossa carreira e se executam o nosso trabalho.
Efeito do Observador (Mindset e Foco): Se a consciência molda a realidade, a tua postura mental define as tuas oportunidades. Profissionais que treinam a sua atenção para focar em soluções e visões claras de futuro – em vez de reagirem apenas aos problemas – alteram ativamente os resultados e a cultura da sua equipa.
Entrelaçamento Quântico (Networking e Liderança de Ecossistemas): No mercado moderno, o sucesso isolado não existe. Compreender que “tudo está interligado” incentiva a criação de relações profissionais genuínas, onde o crescimento do outro beneficia o teu, promovendo lideranças baseadas na empatia, colaboração e inteligência coletiva.
Matéria como Energia (Intuição e Inovação): Os grandes saltos na carreira e nos negócios raramente vêm da repetição lógica, mas sim de lampejos de intuição (estados alterados de consciência). Valorizar a intuição e a criatividade permite-te antecipar tendências e propor soluções disruptivas que a lógica pura não alcançaria.
Cocriação da Realidade (Agência e Responsabilidade): Ao deixares de te veres como um mero espetador do mercado e passares a ver-te como um cocriador, ganhas um enorme sentido de responsabilidade e autonomia (responsabilidade quântica). Isto elimina a mentalidade de vítima perante crises e impulsiona o protagonismo profissional.
No que diz respeito especificamente ao Upskilling e Reskilling, a verdadeira consciência é a de saber onde estão as lacunas e necessidades, e de que forma estas se manifestam.

Exemplo: uma equipa não está a entregar o que se espera dela. Os prazos derrapam, as decisões sobem sempre ao mesmo gabinete, as ferramentas novas ficam por usar. Na maioria das organizações, a resposta chega depressa: um plano de formação. 😊
É uma resposta compreensível. A formação é visível, fácil de aprovar, dá a sensação de que se está a agir. O problema é que parte de um pressuposto raramente contestado: que a lacuna está (quase sempre) nas pessoas.
Na minha experiência e no que vivencio nos projetos da Knowmad Ventures, muitas vezes não está – ou não está só.
A formação é bem avaliada, os participantes saem motivados e, duas semanas depois, quase nada mudou. Não por falta de vontade, mas porque voltam a um contexto que não lhes permite, nem lhes pede, fazer diferente.
A IA veio tornar este desajuste mais evidente. As tarefas mudam mais depressa do que as funções, os processos e os hábitos de trabalho. Cada ferramenta nova cria lacunas em várias frentes ao mesmo tempo, e responder a todas elas com cursos é cada vez mais caro e menos eficaz.
A pergunta útil, por isso, não é “de que formação precisamos?”. São outras:
Onde vive realmente esta lacuna? E que necessidade esta desperta?
CAPACITAÇÃO, TRANSFORMAÇÃO, CULTURA
PORQUE É TÃO DIFÍCIL VER A LACUNA CERTA
O primeiro obstáculo é que as organizações medem competências, mas não medem o trabalho. Avaliações de desempenho e modelos de competências dizem pouco sobre que tarefas se fazem, que decisões se tomam, e por que é que algumas simplesmente não acontecem.
O segundo é que a estrutura e a cultura são menos visíveis do que as pessoas. É mais fácil aprovar um curso do que mexer em limites de autoridade, circuitos de decisão ou hábitos instalados há anos – mesmo quando é aí que está o problema. 😊
O terceiro é a velocidade. Com a IA, as tarefas transformam-se mais depressa do que qualquer plano anual de formação consegue acompanhar.
O custo deste desajuste sente-se em todos os níveis da organização.
As direções de RH e L&D investem em formação sem conseguir mostrar impacto no negócio e veem programas bem avaliados que não mudam a prática.
Os líderes de equipa têm pessoas competentes que continuam a escalar decisões que podiam tomar, dependem de uma ou duas pessoas que sabem o que mais ninguém sabe e assistem a iniciativas que arrancam com energia e desaparecem ao fim de três meses.
Os profissionais recebem formação sobre o que já sabem, ou sobre o que não podem aplicar. Sentem a frustração de ter capacidade sem autoridade, informação ou tempo para a usar, e veem comportamentos novos serem desencorajados por uma cultura que não os reconhece.
DIAGNOSTICAR ANTES DE INTERVIR
O ponto de partida é o trabalho real. Escolhe uma equipa ou processo crítico e mapeia as suas tarefas e decisões: o que se faz, quem decide, com que informação, e o que está a mudar em cada uma. Entrevistas curtas, um diário de tarefas de uma semana e um workshop com a equipa chegam para tornar visível onde vive cada lacuna.
INTERVIR NA DIMENSÃO CERTA
Quando a lacuna é da Pessoa, Desenvolve. Formação prática centrada nas tarefas e decisões reais da equipa, com casos do próprio contexto. Coaching e Mentoria para competências internas como o julgamento, a decisão em incerteza ou a capacidade de desaprender. Prática acompanhada no posto de trabalho, e não apenas em sala. Na Knowmad, é o território da galáxia Evolução das Pessoas.
Quando a lacuna é da estrutura, Redesenha. Revê limites de autoridade e desce as decisões reversíveis e de baixo custo para quem está mais perto do problema. Garante que a informação chega a quem decide. Redesenhe as funções tarefa a tarefa, decidindo o que automatizar, o que aumentar com IA e o que manter humano. É o trabalho da galáxia Transformação Organizacional, onde aplicamos o Design Thinking para Pessoas e Organizações ao desenho do próprio trabalho.
Quando a lacuna é da cultura, Ritualiza. Instala rituais curtos e regulares, como after action reviews, pré-mortems ou momentos de partilha de conhecimento. Torna visível e reconhece quem pratica o comportamento desejado. Alinha o exemplo da liderança com o que se pede às equipas. Cria normas explícitas para colaboração, documentação e trabalho com IA. É aqui que atua a galáxia Cultura e Workflows, através dos nossos programas de Cultura Organizacional.
RESPEITAR A ORDEM CERTA
Quando uma lacuna vive em mais de um lugar, a estrutura e a cultura vêm primeiro. Formar alguém para um comportamento que a organização não permite, ou não valoriza, gera frustração e não resulta.
MEDIR O QUE MUDA NO TRABALHO
Acompanha indicadores ligados ao trabalho real: tempo libertado em tarefas de baixo valor, decisões tomadas no nível certo, dependências de uma só pessoa reduzidas, adoção efetiva de IA nas tarefas certas e rituais que se mantêm ao fim de três e de seis meses.

CODA
Se calhar eu poderia não ser um bom profissional, se tivesse um outro ecossistema de trabalho.
Trabalhar exatamente nos horários, fazer exatamente o que me pedem, não fazer perguntas. Não é para mim. Adoro trabalhar COM o mundo corporativo, mas seria complicado trabalhar NO mundo corporativo.
Hahahahaha 😊
O clichê do bom trabalhador desmorona-se quando o mundo muda rapidamente. Torna-se um obstáculo quando a segurança no emprego vacila. E não compensa realmente quando a IA e a atomização do trabalho significam que a maioria de nós é agora o “chefe”, mesmo que estejamos na folha de pagamento.
Então, o Skilling (Up e Re) pede uma visão de galáxia, procurando o Nexus Organizacional.
Porque são as competências invisíveis, mas muito percetíveis, como a coragem, escuta ativa, atrevimento para sonhar, o caminho do meio, saber debater e argumentar factos e visões em vez de dogmas e posições, que nos vão safar como profissionais.
Ou então ter agência e intenção de inovar sincronizando exequibilidade, desejabilidade, viabilidade e ética/sustentabilidade.
E aceitar sentir medo e reconhecer que não sabemos quase nada. E que a soberania pessoal – como funciono, o que é importante, como decido e executo de forma alinhada com isso – é a verdadeira diferenciação.
E talvez, reconhecer o que realmente significa sucesso profissional e o que é o Suficiente.
No pipeline de livros para ler está um que se chama Liberdade e Igualdade, do economista Daniel Chandler, que propõe uma experiência de pensamento que considero fantástica:
Se dependesse de ti a criação de uma nova sociedade, e não soubesses quem irias ser nela – rico ou pobre, homem ou mulher, heterossexual ou gay, como quererias que essa sociedade fosse definida e funcionasse?
Ou seja, qual a melhor definição de sociedade que desejarias, sabendo que a tua condição iria ser definida por um sorteio ou uma roleta de casino? 😊
Quase todos nós chegaríamos aos mesmos desejos e respostas.
Considero que o trabalho, os profissionais e as organizações são, neste momento, os melhores e mais eficazes drivers de transformação da nossa sociedade e do humanismo.
É “só” uma questão de ver como podemos utilizar tudo isto de uma forma um pouco diferente. Que te parece? 😊
Obrigado, Abraço e Fica Bem,
H