Realidades Laterais para Líderes e Gestores Knowmad

Realidades Laterais para Líderes e Gestores Knowmad

Realidades Laterais para Líderes e Gestores Knowmad

1500 1012 Hugo Gonçalves

Tudo o que escutamos são opiniões, não Factos. Tudo o que vemos são perspetivas, não a Verdade e a Realidade. – Marco Aurélio

Como já fui partilhando de forma mais ou menos concreta em vários artigos do Knowmad Blog, acredito mesmo que a melhor forma de sermos mais competentes nos nossos papéis de Liderança e Gestão é estarmos continuamente em zonas de exploração. O que denomino por Realidades Laterais.

Isso implica manter um ritmo constante de abertura da nossa mente e emoções à divergência, ambiguidade, paradoxos e aos consensos e aceitação. E para isso, nada melhor do que estarmos mais atentos e expormo-nos a pessoas, temas, livros, música, arte, “diferentes” dos nossos gostos, interesses e hábitos. A impermanência é o novo preto.

Da melhor forma que posso, através de leituras, conversas com a minha “tribo” e com a sorte e felicidade que tenho em trabalhar em várias áreas de negócio e sobre vários temas, vou conseguindo manter essa renovação e exposição ao diferente a carburar.

Mas existem dias onde, até devido a outros hábitos e processos de gestão internos que todos passamos, é também importante explorarmos o que denomino Realidades Laterais.

As Realidades Laterais não se esgotam no conceito de Empatia e da Regra da Platina. Observar e imergir as Realidades Laterais é uma abordagem que nos permite encontrar fontes de inspiração para a Inovação e para o menos óbvio, ao mesmo tempo que aguça competências emocionais e relacionais que depois irão fortalecer-nos como profissionais nas nossas áreas de referência, especialidade e paixão.

Em meados de Setembro, estive em Lisboa durante um fim de semana, a trabalhar e mentorar um grupo que está a realizar a sua certificação de Coaching profissional com os meus amigos e parceiros da ICU – International Coaching University – PT.

Os temas daquele fim de semana foram as Inteligências Múltiplas, Inteligência Emocional e a Integração destas no Desenvolvimento Humano no nosso modelo/Visão de Coaching. Fui coadjuvado em algumas atividades pelo meu amigo André Costa Jorge, diretor-geral da JRS – Serviço Jesuíta aos Refugiados, e também Coach.

Como na semana seguinte tinha projetos por LX, resolvi ficar por aqueles lados e desfrutar de algum descanso, lazer e mudança de cenário.

O André convidou-me para conhecer a sua organização que realiza um trabalho meritório com refugiados e migrantes económicos. Claro que aceitei.

Era uma boa oportunidade para ter um “Dia Lateral”. Para imergir numa Realidade Lateral.

O André teve a gentileza de permitir acompanhar seu dia-a-dia de trabalho.

Apresentou-me a toda a sua equipa (tudo malta com muito boa onda e comprometidos com o seu papel). Conheci as instalações, as salas, os departamentos e o que é que cada um deles fazia.

Em seguida acompanhei-o uma visita à RTP / Antena1 para a gravação de uma entrevista sobre o tema dos refugiados. Foi giro conhecer as dinâmicas ligadas aos bastidores da Comunicação Social, nomeadamente da rádio.

Mas a grande Realidade Lateral estava para vir. A JRS gere vários espaços sendo que um dos quais é o Centro Pedro Arrupe – CPA, inaugurado em 2006. Destinado a migrantes económicos sem abrigo, o CPA surgiu como resposta a uma necessidade de acolhimento sentida pelo JRS durante o acompanhamento a muitos utentes em situação de grande carência económica.

Acompanhei o André na visita ao CPA, onde tive o prazer de conhecer as pessoas que diariamente, de forma empenhada, multidisciplinar e alegre, colaboram com os utentes para que estes, de forma individual e comprometida, possam atingir os seus objetivos de autonomia, dignidade e “cidadania”.

A Rita, a Luísa e a Jéssica mostraram-me as instalações, explicaram-me quais as valências do centro, apresentaram-me aos utentes, partilharam histórias. Algumas bonitas, e outra nem tanto. Mas sempre orgulhosas a apresentar a um desconhecido o seu trabalho e ideias.

Pude testemunhar in loco situações… diferentes do meu registo e realidade atual que, dentro da seriedade, achei castiças porque alimentaram a minha curiosidade e genuíno interesse. Os nomes são fictícios para respeitar o “interior” de cada um:

  • A história da “Maria”, uma mulher da Guiné-Conacri, que gosta de estar no seu canto, algo tímida, mas que abriu um sorriso super-feliz ao partilhar que ao fim de 3 anos e de ter estado presencialmente com o seu noivo 3 vezes (no âmbito dela mais do que suficientes) 🙂 está de casamento marcado com um rapaz do Senegal.
  • A visita do Sr. “Jacinto”, um patriarca cigano, distinto e educado, músico reconhecido na praça que já tocou com vários nomes icónicos da música portuguesa dos anos 70 e 80. Em representação da sua comunidade, alinhava com o André estratégias de interligação e sinergias entre o CPA e a população do bairro onde o centro está inserido.
  • Conheci o percurso da comida que partilhamos ao almoço, que chegou através de protocolos com empresas de retalho que possuem cozinhas industriais, e que também doaram fornos adequados e outros equipamentos para o CPA poder assegurar de forma tranquila e prática a alimentação dos utentes do centro.
  • Assisti às “praticalidades” da gestão diária do Centro, sempre curioso e admirado com as dinâmicas emocionais e sociais que este tipo de atividade requer e implica.

No fim do dia, quando me despedi do André, agradeci-lhe de coração a abertura e oportunidade de poder ter partilhado aquela Realidade Lateral.

Foi com refugiados e migrantes, podia ser com deficientes, com pessoais nacionais em risco de pobreza e privadas da dignidade da alimentação, habitação, educação e conforto. A tipologia não importa.

Confesso que por momentos, senti-me eu o “refugiado”. Porque às vezes também temos que ir embora de “casa”, seja o que isso for. Todos temos dentro de nós essas várias Realidades Laterais. Se calhar estamos habituados a vê-las como camadas, e não como cadeias e ecossistemas.

Mas este Dia Lateral, que aconteceu numa altura de reflexões e decisões mais pessoais, trouxe-me muito mais do que aqui partilho. Trouxe-me humildade, um descentrar saudável da minha paixão em Desenvolver o Capital Humano e Organizações. Mas serviu para também perceber que esses mesmos temas podem levar a resultados e impactos que minimizem a Realidade Lateral que vivi naquele dia.

Aquelas pessoas agiram de forma corajosa, vivendo e lidando com situações complexas no sentido de alcançarem uma dignidade e vida melhor, na grande parte dos casos sem outra escolha. Eu tenho escolha, Nós temos escolha. Pelo menos, muito mais robusta do que a destas pessoas.

A reflexão seguinte foi sobre o poder das Lideranças e Organizações em promover / sustentar as condições para que não existam migrantes e refugiados. De forma literal e metafórica.

Assim:

  • Que na tua Empresa se possam criar as condições para que o Trabalho, as Organizações e os Negócios sejam contextos de Evolução, Desafio e Equilíbrio e Valor;
  • Como Líder | Profissional que possas alinhar o que gostas de fazer [Interesses], com os teus Skills e Competências [Talento + Conhecimento] e com a forma como te relacionas com os outros [Personalidade], em benefício da tua evolução e criando um Impacto positivo e equilibrado em teu redor.
  • Que exista a melhor integração organizacional de recursos, informação, requisitos do cliente, experiência e lições aprendidas através culturas e comportamentos organizacionais e ecossistemas abertos e honestos

Acredito firmemente no lucro com propósito e que hoje em dia produtos e serviços devem “abandonar” a sua costela de funcionalidades e conectarem-se a abordagens mais Human Centric para serem manifestações de Impacto nos clientes, utilizadores e beneficiários.

Cá estarei para ajudar a isso. Mesmo que nem sempre seja claro qual o melhor Caminho e Estratégia para o fazer.

Obrigado e Abraço,

Hugo

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