Facilitar o Trabalho (Parte 1)

Facilitar o Trabalho (Parte 1)

612 408 Hugo Gonçalves

—  KHALIL GIBRAN

TRABALHO = DEFINIÇÃO, EXPLORAÇÃO, IDEAÇÃO, PRIORIZAÇÃO, COLABORAÇÃO


Janeiro de 2025. Ao realizar o debriefing de um workshop com a Direção de Pessoas e Cultura de um dos maiores grupos hoteleiros nacionais, onde se criou e desenvolveu uma Estratégia de Desenvolvimento de Pessoas, Cultura, Liderança e Formas de Trabalhar, as participantes (eram só meninas 😊) partilharam a agradável surpresa que foi para elas a forma como a abordagem da Facilitação permitiu criar, no espaço de 2 dias, uma quantidade e qualidade fenomenal de reflexões, visões estratégicas, insights, prioridades e ideias para projetos, iniciativas e planos de ação, enfim para o trabalho e workplace.

Também expressaram uma ideia-chave que me fez bastante feliz – o facto de sentirem que a grande parte do que foi criado veio delas próprias, quer de forma individual quer em equipa. E que sentiram que o “desafio” que lhes fiz sobre elas serem as melhores consultoras da sua própria organização se materializou.

Como referi no artigo anterior, ainda existem muitos vieses e miopias profissionais e organizacionais, que nos impedem de poder dar melhores respostas através do nosso trabalho, ao invés de menos boas reações, para aquilo que as Pessoas e Mundo necessitam.

A necessidade de controlo aparentemente ainda parece imprescindível. Com tantos elementos, variáveis e fatores, obviamente que se torna complicado gerir isto tudo e isso traz uma sensação de insegurança.

SABER algo ou achar que se acredita fielmente em algo traz uma (aparente) sensação de controlo. Numa época onde é OK não termos as respostas todas (porque não existem e não existe apenas uma só possibilidade), insistimos ainda mais a tentar encontrar uma única solução.

Por outro lado, a competição, principalmente no seio de uma organização, é um sinal de algo muito impactante e ao mesmo triste. A competição é basicamente uma manifestação de separação entre nós. Como se não fossemos uma inteligência coletiva. E como se a nossa maior prioridade não fosse obter o melhor para o bem comum e da nossa tribo organizacional.

Existem abordagens que dão resposta ao controlo e separação organizacionais.

Para a primeira, a liberdade para fazer diferente e a aceitação para melhor lidar com o que apenas tem de ser de determinada forma. Para a segunda, a proximidade das emoções e relações. Na minha visão são a melhor vantagem competitiva atual e principalmente futura, relativamente ao trabalho, profissionais e organizações.

A Facilitação Evolutiva é uma forma de materializar tudo isto, de forma indexada à Engenharia Organizacional. Deixa-me que te conte mais sobre isto. 😊

Um(a) Facilitador(a) é um profissional que desenvolve, dinamiza e implementa a condução de dinâmicas de definição, exploração, ideação, priorização e colaboração relativamente a problemas, oportunidades, ideias, decisões e ações no seio de um grupo, através de um processo estruturado, a fim de alcançar objetivos, resultados específicos ou possibilidades diferentes. 

Os facilitadores normalmente ocupam uma posição neutra e imparcial enquanto usam técnicas de facilitação para incentivar o envolvimento e a colaboração, onde os participantes são escutados e suas contribuições são valorizadas.

Um facilitador normalmente não assume um papel ativo na conversa ou fornece todas as soluções, mas ajuda a orientar o grupo a encontrar suas próprias ideias e soluções. Os facilitadores fazem isso através de uma combinação de técnicas eficazes, agendas cuidadosamente projetadas e criando as condições ideais para uma colaboração eficiente. 

O papel do facilitador é apoiar o processo de um grupo desenhando atividades, abrindo uma discussão importante e oferecendo questões chave.

A posição de um facilitador é neutra em relação ao conteúdo (mas não em relação ao processo). Faz parte do trabalho do facilitador garantir que diferentes vozes sejam tenham palco, tempo e espaço, mas não escolher entre essas vozes ou sugerir soluções de forma taxativa (em oposição a funções de consultoria mais “tradicionais”). 

Podemos resumir as partilhas anteriores afirmando que um facilitador projeta e executa processos em grupo com o objetivo de tornar mais fácil para todos contribuir e alcançar um objetivo partilhado.

Os Facilitadores até podem dizer para onde olhar, mas não dizem o que o grupo deve ver. 😊

Considero que os princípios basilares do Coaching e do Design Thinking como o foco human-centric, as questões como precursores de soluções, escuta ativa, empatia, crença inabalável no potencial, inteligência e contributo dos profissionais e equipas são o âmbar (essência) e o magma (energia) que alimentam a Facilitação Evolutiva em contexto organizacional.

Promovem a auto liderança, a criatividade, as relações e as emoções, colocando tudo isto ao serviço da eficácia, eficiência, performance, resultados e objetivos.

Eu diria então que a facilitação é como se fosse um portal bidirecional. 😊

Por um lado, permite que possamos parar, observar, apanhar o helicóptero, ver com olhos de ver o nosso ecossistema organizacional (cultura, processos, formas de trabalhar, recursos, competências).

Ao mesmo tempo dá-nos tempo e espaço mental e relacional para levar esse helicóptero a outras paragens e observar o que se passa fora da organização, para nos aproximarmos de forma genuína de quem nos compra produtos e serviços. “Apenas” pelo simples motivo de querer criar os melhores impactos às Pessoas e aos seus pains&gains, com esses mesmos produtos e serviços

Os facilitadores podem ser chamados a facilitar eventos e reuniões, workshops, iniciativas e projetos de maior complexidade e robustez. Podem também funcionar como Coaches e consultores colaborativos, através da corresponsabilização e definição de âmbitos de neutralidade e contribuição.

 

O foco de um facilitador está calibrado para incentivar o equilíbrio entre os três pilares do trabalho em grupo: Objetivos, Processo e Relações.

OS OBJETIVOS – Qual é o objetivo do nosso trabalho em conjunto? O que queremos alcançar? Este é o domínio dos KPIs, metas e resultados concretos. Como podemos explorar e desenhar o futuro de uma equipa e organização? Qual é o resultado desejado pelos grupos? Que valores gostaríamos de incorporar no caminho?

O PROCESSO – É sobre como trabalhamos juntos. Quais são os nossos processos de grupo? Quem toma as decisões? Como nos responsabilizamos uns aos outros? Como aprendemos (tanto com o sucesso como com o fracasso)? Aqui, um facilitador eficaz ajudará os grupos a assumir o controlo da sua própria colaboração, através da partilha de metodologias de gestão colaborativa de tarefas, interação e resolução de problemas em equipa.

RELAÇÕES – É aumentar a confiança mútua dentro do grupo através da (re)conexão emocional individual e da (re)conexão individual entre todos. Com quem estamos a trabalhar? Até que ponto nos conhecemos e comunicamos? Ajudar as pessoas a aprender a participar de forma eficaz e com respeito mútuo é um elemento vital de uma facilitação eficaz.

Em cenários corporativos, os facilitadores muitas vezes encontram equipas que dedicaram o seu tempo quase exclusivamente a objetivos, em detrimento de processos e relacionamentos. A confiança pode ser corroída ou pode haver falta de clareza sobre como trabalhar em conjunto de forma eficaz.

Novas condições, como o trabalho online, tornam especialmente claro quando o processo está mal definido: muita energia e tempo podem ser desperdiçados por duplicar esforços ou deixar projetos emperrarem devido a um gargalo!

Nesses casos, um facilitador eficaz irá sugerir formas de trabalhar a coesão da equipa, incentivando a participação e estabelecendo acordos sobre como trabalhar em conjunto, cocriando processos que se encaixem naquele contexto específico.

A facilitação às vezes é mal interpretada como uma abordagem “happy pill“, mas o objetivo real dos jogos e das “brincadeiras” não é lúdico, muito pelo contrário. É permitir criar um ambiente seguro, transparente e descontraído que permita que se possam trabalhar coisas sérias de forma leve e participativa.

Em alguns contextos, por vezes diagnostiquei a “patologia” oposta: o grupo está tão focado em sentir-se bem e criar coesão interna que não está realmente a avançar em direção aos seus objetivos, ou nunca definiu objetivos claros!

 

Diria que a nível cronológico e estratégico, existem 3 timings que são definem o impacto que um processo de facilitação (independentemente do tema, âmbito, propósito ou formato) pode seguir:

O DESPERTAR 😊 Podemos despertar do transe de estarmos na máquina de lavar profissional, em modo de centrifugação e assim libertarmo-nos dessa abordagem mecanicista de ver e executar o trabalho e colocarmo-nos num papel de estratega, observador e executante a 720º.

Definindo quem somos como profissionais e organizações, o que temos e o que é preciso ter, o que nos é pedido e qual o grau de eficácia e eficiência da nossa resposta. Tendo consciência dos nossos recursos, capacidade, experiência e inteligências individuais e colativas e de quais os nossos gaps, oportunidades e desafios.

Despertar significa:

  • (re)conectar e (re)conhecer com quem somos para melhor atuar naquilo que fazemos;
  • parar para realmente olhar e enderençar com a melhor atenção possível um desafio, oportunidade ou temática organizacional;
  • identificar os interesses que nos unem, em vez das posições que nos separam.

O EXPLORAR – Nesta fase, tendo sido já estabelecidos objetivos, âmbito e propósito, a ideia passa por explorar estados atuais e imaginar realidades futuras.

Explorar significa reunir e avaliar todas as fontes de infirmação. Dados, relações, emoções, necessidades, ligações, requisitos, expetativas, aspirações, nossas e nos nossos clientes e da sociedade, tudo isto é informação.

E para podermos fazer esse sensemaking e interpretação de todos os nossos ecossistemas, é fundamental navegar de forma orgânica pelas várias dimensões organizacionais internas e pelos diferentes ecossistemas e stakeholders internos.

Para podermos imaginar um mundo profissional, organizacional e social melhor, temos que perceber como é que o mundo atual funciona e quais as tendências e weak signals.

Assim podemos especular, imaginar, inventar um futuro desejado ou apenas decidir, priorizar, solucionar temáticas do presente experienciado.

O MANIFESTAR – Chega então a altura de colocar as mãos na massa. Em formato de projetos, iniciativas e planos de ação organizacionais, de equipa e individuais.

Exploramos aqui o 5W2H (What, Why, When, Where, Who, How, How Much). Estabelecemos a melhor sincronização entre tarefa/atividade e colaborador e profissional. Definimos os graus de autonomia e supervisão adequados. Tornamos o progresso visível.

Encontramos a melhor forma de distribuir trabalho e de sermos eficazes e eficientes ao nível da performance. Criamos ou utilizamos as cerimónias e artefactos que criam fluxo de processos, informação, execução e follow-up.

 

Objetivos alimentam o Despertar, Relações alimentam o Explorar, Processos materializam o Manifestar.

Acho que um dos principais impactos da Facilitação é simplificar e descomplicar. Eu e outros colegas temos recebido de forma consistente o feedback de que, quando os profissionais e equipas se permitem parar um pouco e olhar para o ecossistema de forma conjunta, as causas raiz de alguns problemas e respetivas soluções são identificadas.

E que as respostas para os desafios e possibilidades que se perspetivam no futuro conseguem ser construídas de forma relativamente fácil e enriquecedora.

A facilitação permite também reconectar. Permite-nos aceder à nossa Essência, Princípios, Valores, Recursos, Aspirações e Ideias. E isso é fundamental, pois o ambiente corporativo pode ser um pouco áspero, desgastante e limitador destas dimensões humanas

Permite também que possamos ter um maior ownership. Criamos sistemas para nos facilitarem a vida na execução, não na criatividade e nos processos de decisão. 

Estamos, talvez pela perspetiva do facilitismo e competição organizacional e profissional, a deixar que cada vez mais “algo” sintético pense e decida por nós, para depois sermos nós a levar com essa carga de trabalho, para alimentar esse próprio sistema.

Como alguns amig@s meus costuma dizer, isto é só parvo 😊

A Facilitação em contexto corporativo é uma terceira via, um blend de grande qualidade (uma analogia ao whiskey que não bebo 😊) entre a consultoria e o training.

Pois assim todos, quer a equipa quer o facilitador, trazem para cima da mesa a melhor qualidade e quantidade de conhecimento, ideias, perspetivas, energia e propósito que alimentam os Objetivos, Processos e Relações, no que ao trabalho e organizações diz respeito.


A nossa vida profissional e o trabalho de facto pode ser um pouco mais fácil! 😊


Obrigado, Abraço e Fica Bem,

H

    WP to LinkedIn Auto Publish Powered By : XYZScripts.com