O verdadeiro Piloto Automático

O verdadeiro Piloto Automático

1920 1016 Hugo Gonçalves

Observa a sua Beleza, reconhece sua Graça

—  SHABAKA HUSTINGS

Piloto Automático – Auto Liderança de forma Inata

Há uns meses, fiz uma lista do que chamei Momentos do Artista 😊 (inspirado no livro de desenvolvimento pessoal Caminhos do Artista de Julia Cameron), um conjunto de experiências, locais e “desmames” das habituais rotinas pessoais e profissionais, para explorar de forma deliberada e regular outras zonas de novidade e eventual desconforto, e assim ter acesso a perspectivas diferentes, e olhar de frente para os meus hábitos, ideias pré-concebidas e vieses.

Uma das primeiras foi “pilotar” um avião comercial numa viagem Porto – Lisboa, onde tive oportunidade, através da simulação do voo, identificar algumas ideias-chave, para além da exposição à nova experiência:

  • A preparação de facto é tudo: a checklist antes de levantar voo é uma coisa colossal;
  • Nos momentos mais importantes – levantar voo e aterrar – é importante estarmos plenos e presentes, pois mãos, pés, olhos (no painel e na janela) trabalham de forma simultânea;
  • Os processos e sistemas automáticos, quando bem desenhados e favoráveis às pessoas, são fixes (piloto automático);
  • É com os outros que evoluímos, aprendemos e asseguramos performance e qualidade (copiloto).


Tudo isto pode ser transferido para o nosso dia-a-dia profissional.


Quanto trabalho com líderes, managers, especialistas e equipas a temática da Produtividade e da Autoliderança em contexto profissional, surge sempre uma expressão que é utilizada para assinalar uma “perda” da clareza, decisão e foco, aquando da realização das várias atividades profissionais.

Eu costumo denominar esse estado como “estando na máquina de lavar, em modo de centrifugação”, mas quase todas as pessoas utilizam a expressão “estou em piloto automático.

De forma intuitiva, sempre achei estranha a utilização dessa expressão. Pois, por definição e pela experiência que a simulação de voo me proporcionou, a esta expressão deveria corresponder um estado de perspetiva, possibilidade, preparação, presença, habilidades, criando com isso soberania, escolhas e eficácia.

Assim, tendo em conta o contexto, recursos e boas práticas, competências e capacitação que define a tua função e ecossistema profissional, reconheces o que se passa à tua volta e o que é importante fazer, defines da melhor forma as prioridades, e assim executas de forma individual ou colaborativa os caminhos que te irão levar aos resultados que proporcionem impacto e valor.


Vejamos o significado da palavra pilotar:

pi·lo·tar

  • Dirigir ou conduzir como piloto (ex.: pilotar um avião; pilotar um navio)
  • Guiar ou conduzir (vários veículos)
  • Exercer o governo ou a gestão de. = dirigir, governar
  • Navegar, explorar, guiar e conduzir através de rotas conhecidas e desconhecidas


Profissionalmente sinto que estarmos em modo piloto implica termos uma abordagem 720º de nós próprios como pessoa e profissional, da nossa função, equipas, organização, clientes e mundo.

Através da aposta no trabalho de desenvolvimento e capacitação dos profissionais nas seguintes áreas:

O PILOTO ERRÁTICO

Se calhar o título acima é que realmente define o verdadeiro significado que os colegas e clientes pretendem dar à expressão piloto automático. 

É um estado de alma onde se confunde trabalho e valor com esforço, onde o busyness impera e isso impacta de forma fraturante o verdadeiro business. 😊

São “viagens” diárias onde o retrabalho, apagar fogos e lidar com urgências (muitas destas resultantes desse mesmo retrabalho) são o que definem a nossa agenda. Em vez de o que se torna importante fazer, tendo em conta o que a combinação de contexto, resultados, recursos pede que seja feito (de forma individual ou em equipa). 

São eventos onde utilizamos, de forma algo míope e cega em alguns casos, os processos s standards estáticos, que foram criados para clientes, contextos, produtos, serviços, necessidades e desafios completamente diferentes dos que vivemos agora.

E com isso estamos a aumentar a dissonância e incongruência entre aquilo que fazemos (produtos e processos) e o valor que é necessário entregar através desses mesmos processos e serviços, às Pessoas e Mundo.

São escolhas que advém de uma não aposta na curiosidade e empatia perante a nossa própria organização, cultura, colaboradores e como estes se sincronizam com necessidades, expetativas, pains and gains de clientes, beneficiários, utilizadores e partes interessadas.

São abordagens onde os critérios utilizados para avaliar a produtividade e valor são quase sempre o mais, o mais rápido, a competição – o óbvio, o tangível e o comparativo. Em vez do melhor mix entre qualidade e velocidade na compreensão lógica e emocional do nosso contexto e como podemos ser úteis, no desenvolvimento dos profissionais, da comunicação e gestão de conflitos, na definição de responsabilidades e melhor alocação de recursos.

E como podermos ser eficazes e eficientes a olhar, compreender, refletir, intuir, decidir e colaborar, para além de sermos fabulosos a fazer. 

Tudo isso causa mossa e faz com que possamos estar na ilusão de que somos nós que estamos ao volante, leme ou joystick. 😊 Nesta vivência do trabalhar em piloto errático, até podemos estar sentados no local certo, mas a direção e rumo são definidos por outros ou algo – outras pessoas e outros sistemas.

O VERDADEIRO PILOTO AUTOMÁTICO

Na minha visão, pilotar ou ser piloto de algo implica um conjunto de valências e dimensões que devem estar asseguradas, tal como as competências e habilidades para se poder conduzir, guiar, gerir, governar – seja veículos, recursos, processos.

Piloto = Reconhecer, Saber, Escolha, Executar, Saber o Caminho

Automático = Intuitivo, Inato, Resposta, Boa Prática, Orgânico, Humano


Estas palavras parecem-me ser bastante empoderadoras, humanistas e ao mesmo tempo traços que alimentam a eficácia e eficiência das organizações.

Então talvez faça sentido estarmos, como pessoas e profissionais, em piloto automático, segundo esta nova referência (que de facto é um twist).

Estar em piloto automático significa que temos um conjunto de dimensões, recursos e clarezas relevantes para o nosso sucesso profissional e organizacional. E que de forma mais inata, intuitiva e clarividente, manifestam-se os nossos recursos e uma boa autoconsciência de quem somos, como funcionamos e quais os nossos recursos e oportunidades de melhoria.

Implica que para além do destino ou objetivo, estejamos preparados para potenciarmos o veículo e conhecermos a estrada, direções, mapas e territórios. Requer que tenhamos uma boa visão da envolvente e que possamos dar a melhor resposta.

Pede que demos o nosso melhor para levar em conta o contexto dos outros, pois as minhas atividades impactam os meus colegas. Requer um processo colaborativos, pois através de regras, práticas e consensos sociais e organizacionais é que conseguimos estar alinhados e manter a nossa individualidade.

Para isso necessitamos de utilizar recursos mais profundos e menos óbvios como o self leadership, estratégia, criatividade, desenvolvimento pessoal e de inteligência emocional, o trabalho colaborativo, a relação que temos connosco próprios e com os outros e reconhecer qual o VALOR que as nossas atividades e tarefas criam:

IDENTIDADE – Quem somos, o nosso perfil de foco, energia, de produtividade, o que gostamos mais e menos de fazer, a forma como decidimos, documentamos e comunicamos são fatores críticos de sucesso para a nossa produtividade pessoal e profissional;

EMOÇÕES – A forma como reconhecemos as nossas emoções e recursos – aqueles que nos potenciam e aqueles que poderão ser um obstáculo aos objetivos e valor que pretendo entregar – influi grandemente na nossa produtividade. Regular as minhas emoções na relação comigo e com os outros permite um maior foco, menor desgaste e stress e potencia o trabalho em equipa, através da inteligência emocional e empatia;

ESTRATÉGIA – Cabe a cada um de nós identificar o que funciona melhor e “fazer” com que o nosso sistema possa de forma fluída, eficaz e consensual, integrar os outros ecossistemas de produtividade – fornecedores, parceiros, colegas, chefes, equipas, clientes, utilizadores – ou seja, o meu sistema potencia o ecossistema;

EU E OS OUTROS – É extremamente importante reconhecemos que não somos completamente independentes nas escolhas que podem levar à nossa melhor produtividade pessoal e profissional. Temos sempre radares de influência onde temos o poder de decisão e de design. Temos outras situações onde apenas podemos influenciar e articular estratégias conjuntas, e em outras situações só existe mesmo aquela maneira de realizar. Cocriar, trabalhar em equipa, trabalhar mais por projetos do que por processos coloca os Outros no papel de potenciadores da nossa produtividade, em vez de serem obstáculos;

EXECUÇÃO – então agora sim, estamos preparados para escolher quais as melhores ferramentas, templates, metodologias. Para assim podermos materializar o nosso sistema e executar tudo o que diga respeito a calendário, tarefas, pausas, foco, timings, comunicação, gestão de informação, colaboração com outros, etc.

 

CODA

Existe uma expressão em inglês – Human Agency – à qual estou a dar cada vez mais importância.

Refere-se ao conjunto de emoções, pensamentos e ações que cada um de nós pode manifestar e exercer para materializar o seu livre arbítrio, de forma harmoniosa e equilibrada com o mesmo exercício por parte dos outros.

É a nossa capacidade de sentir que conseguimos lidar com várias dimensões, contextos, desafios e oportunidades no espectro da nossa vida, utilizando-nos a nós próprios como o principal recurso – intuição, ideias, conhecimento, decisões, hábitos e comunicar as nossas necessidades e saber aceitar a expressão das mesmas por parte dos outros.

Ao contrário do que se diz por aí, estar em piloto automático é ótimo. 😊

Desde que Tu sejas o piloto e que a tua Bússola esteja bem calibrada.


Obrigado, Fica Bem e Abraço,

H

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