Tu és o céu. Tudo o resto é meteorologia
— PEMA CHODRON
COMO A AGÊNCIA E A INTENÇÃO PODEM MATERIALIZAR MUITO DO QUE ASPIRAMOS COMO PROFISSIONAIS E ORGANIZAÇÕES
Espero que tenhas tido, estejas a ter ou ainda possas vir a ter em breve umas férias e dias (e noites 😊) de descanso, alegria, boas experiências, sserenidade e tudo isto rodeado de pessoas fixes e importantes.
Paris. A Coulée Verte René-Dumont é um dos segredos bem guardados de Paris, oferecendo um refúgio de paz suspenso acima da azáfama urbana. Este parque linear estende-se por 4,7 quilómetros, combinando arquitetura industrial, design paisagístico e uma vegetação luxuriante.
Foi uma das mais agradáveis surpresas da minha última visita à cidade, no âmbito de mais um projeto/workshop de Critical + Design Thinking para advisors, consultores técnicos e funcionais de uma multinacional de Data Management.
A estrutura nasceu em 1859 como a linha ferroviária de Vincennes, que ligava a Estação da Bastilha aos subúrbios. Desativado em 1969, o espaço ficou abandonado até à década de 1980, quando a cidade decidiu reabilitá-lo. Em 1993, abriu ao público como a primeira linha ferroviária suspensa do mundo convertida em parque municipal, servindo mais tarde de inspiração direta para o famoso High Line de Nova Iorque.
O troço inicial segue a 10 metros de altura sobre os arcos de tijolo da antiga ferrovia. Oferece vistas únicas sobre as fachadas dos edifícios parisienses e permite ver os ateliers de artesãos alojados sob os arcos ao nível da rua. No Jardin de Reuilly, o caminho desce ao nível da rua e entra em antigas trincheiras ferroviárias ladeadas por paredes de pedra cobertas de hera, videiras virgens e caminhos ladeados por bambus.
De facto, mesmo em locais onde tudo já parece conhecido e saturado, existem sempre pequenos segredos, oásis e lugares que, mesmo inseridos no meio da confusão, possuem a sua própria aura de paz, de serenidade e que, de alguma forma, nos nutrem interiormente.
Outono. A faixa “Autumn 3” integra o aclamado Recomposed by Max Richter: Vivaldi, The Four Seasons, lançado originalmente em 2012. O compositor decidiu reescrever a obra-prima de Antonio Vivaldi para resgatar o encanto que sentia pela peça na infância, após sentir que a massificação comercial a tinha desgastado.
Richter adotou uma abordagem radical. Descartou cerca de 70% a 75% da partitura original. Isolou fragmentos melódicos específicos. Aplicou técnicas da música pós-moderna e minimalista. O álbum fez tanto sucesso que foi regravado em 2022, utilizando instrumentos de época e sintetizadores vintage. Recomendo dar uma olhada nas performances desta obra tocadas pelas violinistas Elena Urioste e Mari Samuelsen.
Normalmente associamos esta época, o Outono, aos dias que acabam mais cedo, ao início do frio, a uma alegria e energia a irem embora e a preparação para tempos mais agrestes.
A questão é que o Outono pode ser também uma época maravilhosa a nível pessoal, profissional e organizacional. Porque podem ser vivenciadas etapas de maturidade, colheita, desaceleração e reflexão estratégica, que são fundamentais para a manutenção e desenvolvimento da Evolução e a Renovação.

OUTONO ORGANIZACIONAL
Este verão, o meu principal foco foi respirar de forma consciente, caminhar, escrever, meditar, yogar, viajar, proporcionar-me momentos de coisas bem simples e viver muito devagar. Escolhi deliberadamente o aborrecimento como abordagem de regeneração.
Mas, à medida que a rentrée se aproximou, fiquei com aquela inquietação fixe dos vipes e devaneios aqui para o blog. O projeto de Paris mais as caminhadas de flâneur ao longo das férias fizeram-me refletir sobre esta questão do Outono como abordagem estratégica:
Fase de Colheita: É o momento em que a organização recolhe os frutos de projetos e investimentos que foram plantados na “primavera” e amadurecidos no “verão” da empresa.
Desaceleração e Foco: Após períodos de crescimento acelerado, o ritmo abranda ligeiramente para dar lugar à consolidação de processos, planeamento a longo prazo e conversas estratégicas.
Reorganização e “Destralhar”: É o período ideal para avaliar o que funciona e o que já não serve (sistemas obsoletos, burocracias inúteis ou produtos que perderam relevância), permitindo que profissionais e organizações se libertem de peso desnecessário.
Preparação para a Renovação: O outono serve de ponte para proteger e estruturar a organização face a fases de maior exigência (o “inverno” do mercado), garantindo a sustentabilidade futura.
Ora, pelo que vou vendo, as próximas semanas e meses até ao fim do ano caracterizam-se por ritmos, prioridades e objetivos bastante diferentes daqueles que partilhei nas linhas anteriores.
Encaixar as formações todas que não se fizeram até ao fim do ano, aumentar ainda mais o ritmo das vendas, concluir as auditorias em atraso, concluir ao mesmo tempo todos os projetos delineados e em atraso de deadline.
Ora, se estamos a escolher as estratégias diferentes daquilo que os nossos ritmos, mente, coração, recursos, estratégias e afins nos pedem, obviamente que os resultados não serão bem aqueles que desejamos e precisamos. 😊
Apesar de ter um âmbito do Critical + Design Thinking como ponto de partida, os trabalhos no projeto de Paris expandiram largamente esse campo de ação.
Temos a ilusão de que a utilização mecanicista das ferramentas e abordagens é suficiente para se obterem os resultados e transformações que pretendemos. Mas são cada vez mais os comportamentos, mindsets e heartsets a verdadeira energia “anima” que dá corpo aos sucessos ou insucessos neste contexto.
Muito se explora e “estrategiza”, ainda mais se executa e mede. Mas falta algo no meio. E talvez acima, abaixo e na diagonal ou como eu prefiro, num cosmos organizacional a 720º. 😊
O pensamento crítico e criativo é energia de consciência, transformação e ação.
Ultrapassam de forma que nem consigo quantificar e qualificar a mera abordagem de ferramentas de análise crítica como a Escada de Inferência, os Six Thinking Hats, os 5W2H, Pre-mortem e afins.
Ou os Mapas de Empatia, Shadowing, Personas, Mapa de Jornada do Utilizador, HMW, Brainstorming / Brainwriting, Worst Possible Idea e demais abordagens de prototipagem e teste da abordagem do Design Thinking.
Sem colaboração, comunicação, escuta ativa, questões abertas, inteligência emocional e cenas do género, todas estas ferramentas serão artefactos exteriores de suposta inovação e desenvolvimento organizacional.
Ver claramente. Imaginar de forma expandida. Decidir, Agir e Influenciar de forma capaz.
Foi este o verdadeiro outcome que surgiu deste projeto.
Na parte final, quando estávamos a fazer o debriefing, fiz duas últimas perguntas:
- Quem vai fazer e implementar tudo isto que criamos em conjunto?
- Quem vai defender e comunicar tudo isto a quem terá de decidir e executar tudo isto que criamos em conjunto?
Começaram-se todos a rir, incluindo eu. Eu estava a salvo porque ia embora, mas eles teriam de assumir o auto-entalanço. 😊 Então partilhei com eles a importância do Agengy e do Intent claros, transparentes, formalizados, em contexto profissional e nas organizações.

AGENCY + INTENT
- Agência: quem tem o direito e responsabilidade de agir.
- Intenção: como a ação é tornada visível, operacional e cria impacto.
Tudo o resto, artefactos, processos, interfaces, até experiências, flui a partir destas duas coordenadas.
AGÊNCIA
A agência não é uma noção filosófica abstrata. É brutalmente prática. É a capacidade de tomar decisões e de influenciar o que acontece. Numa organização, a agência está distribuída: executivos, gestores, equipas, algoritmos, políticas, clientes, até reguladores. Todos detêm formas diferentes de agência.
Alguns exemplos:
- Num banco, um funcionário da linha da frente pode querer resolver o problema de um cliente, mas se o sistema CRM o impedir de fazer exceções, a sua agência é praticamente zero. A jornada do cliente quebra-se não por falta de empatia, mas por falta de agência.
- Num hospital, o enfermeiro pode notar um padrão perigoso de erros de medicação, mas se o sistema de reporting encaminhar todos os problemas para um vazio burocrático, a sua agência para corrigi-los desaparece, assim como a segurança do paciente.
- Numa plataforma tecnológica, os moderadores podem detetar conteúdos prejudiciais, mas a palavra final está em modelos opacos de IA e políticas de escalada que ninguém compreende. Quem, então, tem a verdadeira agência?
O próximo nível de maturidade organizacional passa por reconhecer, moldar e redistribuir a agência em todo o sistema.
INTENÇÃO
Se a agência é sobre quem pode agir, a intenção é sobre o porquê e para quê.
As organizações estão cheias de intenções: visões, missões, declarações de valores, compromissos regulatórios. Mas, na maioria das vezes, essas intenções permanecem vagas, não testadas e invisíveis na prática.
A Liderança, a Cultura, o Design Organizacional são “entidades” que permitem tornar a intenção visível e acionável.
Exemplos:
- Uma agência governamental afirma que a sua intenção é a “inclusão digital.” Mas até que um designer transforme isso em fluxos de serviço específicos que mostrem como um cidadão de 75 anos com baixa literacia digital renova realmente o seu passaporte, a intenção não passa de retórica.
- Um retalhista declara que a “sustentabilidade” é um valor fundamental. Expressa essa intenção através de mapas de transparência da cadeia de abastecimento, redesenho de pontos de contacto e rotulagem de produtos.
- Uma empresa de software diz: “Preocupamo-nos com a confiança.” Mas até que a confiança seja manifestada através dos fluxos de consentimento, dashboards de dados e controlos do utilizador, é apenas um deslize numa apresentação.
“Renderizar” a intenção é transformar abstração em forma. Forma que pode ser partilhada, debatida, iterada e governada.
POR QUE É QUE ISTO IMPORTA TANTO AGORA
A IA e a automação estão a acelerar o desacoplamento da ação da intenção. As máquinas podem agir em grande escala sem que ninguém tenha clareza sobre a intenção por detrás das suas ações.
- Um algoritmo de recrutamento pode rejeitar milhares de candidatos antes de os RH se lembrarem do que “oportunidades iguais” deveriam significar.
- Um motor de recomendação pode empurrar as pessoas para padrões compulsivos, mesmo que a intenção declarada da empresa fosse o “bem-estar do cliente”.
- Um programa de mudança organizacional pode lançar dezenas de iniciativas sem que ninguém pare para perguntar: que intenção estão estas a servir, e quem tem a agência para as moldar?
Se a Liderança, Managers, Profissionais, Governance, Partes Interessadas não intervierem para colmatar esta lacuna, o sistema funcionará em piloto automático, otimizado para eficiência, mas cego ao significado e à eficácia – fazer bem o que deve ser feito!
Por isso insisto: o verdadeiro trabalho do desenvolvimento de Pessoas e Organizações está agora em ligar agência e intenção. Garantir que quem tem o poder de agir também tenha clareza de propósito, e que a intenção seja tornada operacional através de artefactos de design, mapas e estruturas de governação.
A verdadeira arte reside na estruturação da agência e na concretização da intenção. É aí que a cultura surge não como decoração, mas como governação, como o tecido conjuntivo que responsabiliza as organizações complexas pelo seu próprio propósito.
O PAPEL DA AGÊNCIA NO OUTONO ORGANIZACIONAL
- Combater a Inércia: Quando os processos estabilizam e os resultados estão garantidos, as equipas tendem a acomodar-se. Colaboradores com elevados níveis de agency não esperam por ordens; eles antecipam problemas e otimizam sistemas por iniciativa própria.
- Liderança Distribuída: Como o outono exige uma análise fina do que funciona e do que deve ser descartado, os líderes não conseguem ver tudo. A agência permite que os colaboradores na linha da frente tomem decisões rápidas para eliminar desperdícios e burocracias desnecessárias.
- Autoeficácia face à mudança: Equipas com forte sentido de agência sentem-se capazes de moldar o futuro da empresa, mantendo-se motivadas mesmo quando o ritmo geral de crescimento abranda.
O PAPEL DA INTENCIONALIDADE NO OUTONO ORGANIZACIONAL
- Fazer Cortes Estratégicos com Precisão: O outono é a altura de deixar cair as “folhas secas” (projetos obsoletos, produtos que já não rendem, reuniões inúteis). Sem intenção, estes cortes são feitos às cegas por razões puramente financeiras. Com intenção, a empresa elimina o acessório para proteger e nutrir o que é verdadeiramente essencial.
- Evitar o “Trabalho por Rotina”: A maturidade de uma empresa traz automatismos. A intencionalidade força a organização a questionar constantemente: “Este processo ainda serve os nossos objetivos de longo prazo ou estamos apenas a fazê-lo porque sempre foi feito assim?”
- Transição para a Próxima Primavera: A intenção garante que o abrandamento do outono seja um recolhimento estratégico para desenhar os novos produtos, mercados ou modelos de negócio que vão florescer no ciclo seguinte.

CODA
O Outono é apenas uma fase, uma etapa, uma renovação. Mas tem a sua própria energia, foco e prioridades:
- Deixar ir.
- Processar e aceitar lições aprendidas.
- Perceber o que se torna importante.
- Planear e Organizar essa transformação.
- Fazer.
A Inovação, Performance e Evolução são suportadas por rotinas e coisas aborrecidas, e não por epifanias e eurekas.
Toda a gente quer uma transformação. Ninguém quer vivenciar os dias aborrecidos e ingratos que realmente são necessários para a conseguir. Basicamente, trabalho diário pouco glamoroso, repetitivo e disciplinado é necessário para alcançar uma transformação significativa a longo prazo.
Aqui estão algumas estratégias:
- Fatiar o elefante aos bocadinhos: Escolhe hábitos que pareçam “demasiado pequenos para falhar” para os manter mesmo nos dias maus;
- Apareça diariamente: Concentra-te inteiramente em garantir que hoje não é o dia em que se desiste, em vez de te preocupares com o objetivo final;
- Acompanha o teu Progresso: Usa um diário ou algo similar para registares as tuas pequenas vitórias e registar as lições aprendidas.
É Outono, é para abrandar, temos tempo!
E claro, temos todo um Verão dentro de nós – princípios, valores, competências, capacitação, mindsets, heartsets 😊
Obrigado e Abraço,
H
P.S. – Notícia divertida que vi na SIC Notícias:
“Passou várias décadas a dar conselhos financeiros para diferentes gerações através do livro ‘Pai Rico, Pai Pobre’, mas o que os leitores não sabiam é que o autor, Robert Kiyosaki tem uma dívida acumulada de 1,2 mil milhões de dólares (cerca de mil milhões de euros).”
Caramba! Diz-me com quem guru(as), dir-te-ei quem és 😊