O verdadeiro problema não é se as máquinas pensam, mas sim se os humanos o fazem
— B. F. SKINNER
Sonhos – conjunto de insights, intuições, ideias, potencial e competências não conscientes ou não incorporadas
“Deus ex machina”. É uma expressão latina que significa “deus que desce da máquina“. No contexto teatral, refere-se a um recurso narrativo onde uma personagem inesperada, muitas vezes com poderes sobrenaturais, surge de forma repentina para resolver um problema que parecia insolúvel. Encerrando a história de maneira abrupta e muitas vezes inverosímil.
A expressão surgiu no teatro grego antigo, onde deuses eram literalmente colocados no palco por mecanismos (máquinas) para resolver conflitos dramáticos.
Em resumo, “deus ex machina” é um recurso narrativo que, embora possa ser usado para criar momentos de surpresa ou resolver impasses, muitas vezes é visto como uma solução fácil e pouco satisfatória para problemas complexos, especialmente quando usado em excesso ou sem a devida preparação.
O Código Da Vinci é sem dúvida uma obra-prima da literatura, que catapultou Dan Brown para a estratosfera dos escritores. Tendo ele escrito alguns livros anteriormente, o Código foi sem dúvida um ponto de inflexão na sua obra, carreira, e na forma como, de alguma forma, começamos a estar atentos a outras possibilidades. No que diz respeito à religião, ao sagrado feminino e à mística história da evolução da história da Europa, tendo em conta o impacto dos tempos do JC. 😊
Existe um livro do Dan, que apesar de menos conhecido, considero bastante disruptivo e eventualmente premonitório. A Origem conta de que forma o nosso amigo Robert Langdon de repente (como sempre 😊) se vê envolvido num conjunto de eventos despoletados por Edmond Kirsch, um bilionário filantropo, cientista da computação, futurista e ateu convicto, com a ajuda de uma “entidade” de inteligência artificial batizada de Winston.
Quando era mais novo (e de forma pontual nos dias de hoje), o meu maior desejo era ter uma máquina que pudesse registar/gravar os meus sonhos. Em alguns momentos, tinha/tenho sonhos mesmo marados, como de se um filme se tratasse. Com eventos, twists, histórias inverosímeis, como se a minha mente e (in)consciência criassem uma “realidade” incompreensível à luz da lógica, mas somaticamente e emocionalmente impactante. Acordava sempre todo roto e amassado aquando desses sonhos. 😊
Estas partilhas são a antecâmara do tema e vipes deste artigo, Hugo.
Considero que os profissionais e as organizações poderão ter que “olhar”, de uma forma mais deliberada e diferenciada da visão e operação corporativa mecanicista e processual, para todos os insights e informação que os sonhos lhes podem trazer. E aqui utilizo de forma livre a palavra sonhos para definir o conjunto de insights, intuições, ideias, potencial e competências não conscientes ou não incorporadas por profissionais e organizações no seu dia-a-dia.

OS 3 SONHOS ORGANIZACIONAIS
Se calhar era fixe que os profissionais e organizações tivessem hipótese de registar os seus sonhos, assumindo a definição da palavra que defini. A questão é que esta clarividência e consciência não é fornecida por nenhuma tecnologia ou ferramenta sintética.
O que nos permite aceder aos nossos sonhos profissionais e organizacionais é o coração aberto, a mente desperta e o corpo enraizado.
Traduzindo em linguagem corporate, é a nossa inteligência emocional e autoliderança, a nossa capacidade de podermos materializar a nossa criatividade, pensamento crítico e plasticidade mental e emocional, e a otimização da nossa saúde e energia em contexto profissional, que irá permitir essa viagem.
Vejo esses sonhos organizados em 3 categorias:
- PESSOAS – Propósito, Aspirações, Recursos e Gaps;
- TEMPO E ESPAÇO DE EMPATIA E CRIATIVIDADE – Como “ler” o ecossistema” atual e assim perceber o presente e desenhar o futuro;
- RELAÇÕES E TRIBOS – Como as dimensões anteriores podem dar origem ao fluxo, colaboração e aprendizagem contínua nas organizações.
SONHO 1 – AS PESSOAS
As Pessoas são a tecnologia mais complexa que conheço. Todos nós sabemos que os dias na máquina de lavar em modo de centrifugação, as dinâmicas do negócios e processos, o foco em objetivos e outras cenas do género nos levam a privilegiar o foco no externo e na motivação extrínseca.
Mas, numa era em que facilmente tarefas, processos, execução e análise de dados podem perfeitamente ser subcontratadas às máquinas e sistemas de informação, chega a altura de começar a fazer parte do trabalho termos uma abordagem contemplativa mais deliberada e regular.
Conhecer como realmente funcionamos (pois acredito que nunca iremos chegar a perceber quem realmente somos 😊), quais as nossas competências, drivers de motivação, formas de comunicar, triggers de sincronização ou disrupção emocional e de que forma isso se sincroniza com o palco existencial que é o trabalho.
A maior parte dos nossos sonhos profissionais poderão ser de índole mais materialista e de status, e tudo bem! A questão é que provavelmente a dimensão a explorar que nos poderá levar a um ponto de maior equilíbrio e caminho do meio (para trazer algum equilíbrio para a Força) é a dimensão existencialista.
Este (re)conhecer de qual o nosso estado atual e de que forma isso se sincroniza ou não com as nossas funções e responsabilidades profissionais permite um certo “despertar”, a identificação de princípios e valores inegociáveis, a clarificação para critérios de decisão e a potenciação dos recursos e o ponto de partida para o trabalho continuo de mitigação de gaps e robustecer as oportunidades de melhoria que sempre iremos ter.
SONHO 2 – O TEMPO E O ESPAÇO QUE NOS RODEIA
Apesar se supostamente estarmos cada vez mais conectados a todos os níveis, o que realmente sinto é que o que nos une são os desfiladeiros que colocamos entre nós e não as pontes que nos poderiam aproximar.
Isso começa logo na questão da perceção e exploração do ecossistema que rodeia a organização – o mundo com os seus VUCAS e BANI, os weak signals, as tendências que normalmente se desejam potenciar através de produtos e serviços, muitas vezes sem avaliar o impacto ético e de sustentabilidade que isso pode causar.
Por outro lado, estando nós como sociedade num processo descendente de desenvolvimento de espírito crítico, de criatividade orgânica e humanista e cenas do género, considero que a inovação está manca no que diz respeito àquilo que esta deve significar – propor sempre possibilidades e alternativas ao estado atual ou ao que é feito de determinada forma. Trazer benefícios económicos e comportamentais, resolve problemas ou torna o dia-a-dia das pessoas mais prático.
E colocar as Pessoas num trilho de autorrealização e melhoria, não numa desvirtuação.
Assim sendo, considero que estamos a perder a nossa capacidade de sermos curiosos com quem e com o que nos rodeia. Definhando na nossa capacidade de espírito crítico e capacidade de podermos ter insights e lessons learned. Sendo que essa “intelligentsia” é um dos principais triggers da criatividade e inovação – a necessidade aguça o engenho, o vazio alimenta a criação do novo.
SONHO 3 – AS RELAÇÕES E AS TRIBOS
Fala-se muito de cultura organizacional, mas considero que ainda se faz pouco.
A cultura, colaboração, sincronização de talentos, experiência e competências não pode ser definida, mas pode ser desenhada. Não pode ser medida, mas pode ser sentida de forma intensa como as forças G. Pode não ser vista, mas toda a gente fala dela.
Existindo várias dimensões da cultura organizacional – nuclear, emocional, funcional, o que muitas vezes vejo são sinais exteriores de cultura, que não são congruentes com os diálogos, comportamentos, artefactos, cerimónias que a organização utiliza de forma transversal.
Existe tanto por explorar relativamente à forma como líderes, equipas, colegas, podem alinhar e sincronizar insights, decisões, ideias, planos e desdobrar isso para processos ágeis, métricas de progresso, espaços de alinhamento, partilha, follow-up e lições aprendidas.
E assim materializar a performance com equilíbrio, a potenciação de todo o capital humano e dos recursos e experiência organizacionais.
Todo este ecossistema manifesta-se num mundo físico, mas realmente “acontece” num mundo mais subtil, intuitivo, emocional e quiçá espiritual.
A minha produtividade profissional não está dependente de técnicas ou ferramentas, da minha força de vontade ou foco. Está umbilicalmente ligada à minha capacidade de autoliderança, a eu ter critérios claros sobre o que fazer, porquê e como, de ser empático e reconhecer como é que os outros funcionam a nível de drivers de motivação, comunicação e qual o seu potencial e recursos e assim estabelecer a melhor conexão e colaboração.

CODA
Todos estes sonhos – informação, insights, intuições, novas perspetivas – sobre a Evolução das Pessoas, Transformação Organizacional e Inovação e Cultura e Fluxos de Trabalho são, na minha visão, pepitas de ouro que estão à nossa frente, que de alguma forma sabemos que estão lá, mas que ainda não conseguimos ver.
Para isso, pode ser importante incluir de forma deliberada e regular no nosso trabalho a exploração curiosa, aberta e colaborativa de todos estes sonhos.
Não estou aqui a dizer que tu e a tua organização devem desenvolver poderes místicos 😊, mas que faz sentido estarmos mais presentes e atentos.
E sei que este meu “pedido” é desafiante de colocar em prática, pelo facto de estarmos a alimentar um ritmo frenético de estímulos, uma overdose de informação e escolhas, e uma polarização e rigidez de posições, em vez de explorarmos os interesses e necessidades que nos unem.
Neste momento estamos numa etapa profissional e corporativa onde estamos a ser simultaneamente criador e criação. E paradoxalmente, parece que estamos a querer fazer outsourcing dessa liberdade e poder para, como referido na introdução deste texto:
“… encontrar uma solução fácil e pouco satisfatória para problemas complexos, especialmente quando usada em excesso ou sem a devida preparação.”
Até para algo tão orgânico como Sonhar, é necessário criarmos alguns pressupostos de sucesso.
Sonhar (no âmbito deste artigo) implica parar, conectar com a origem, descansar, refletir, aceitar, reconhecer o que é importante, experimentar algo diferente, conhecer pessoas diferentes, dialogar connosco mesmos e conversar mais com outros.
Eu diria que as férias podem ser o melhor palco para isso e é nesse sentido que te desejo umas Ótimas Férias e um ainda Melhor Descanso. Que possas ter, estar a ter ou ter tido tudo o que precisas e desejas para poderes regenerar corpo, mente, emoções e alma. 😊
Para que, como líder, manager, membro de equipa e profissional, te possa ser claro quais são os sonhos atuais que irão construir a tua melhor realidade futura.
Obrigado, Abraço e Fica Bem,
H
P.S. – Em inícios de Setembro cá estarei de novo a partilhar vipes e maluqueiras sobre a melhor integração e evolução das Pessoas e Organizações 😊