O mundo é subjetivo, a realidade interna dita a realidade externa. Aceitar é colocar energia na solução
— LAMA MICHEL RINPOCHE
INTELIGÊNCIA ORIGINAL – “Eu sou porque nós somos”
Call Centers. Até o Vigário de Cristo não resiste a uma experiência impactante ao interagir com um call-center. 😊
Dois meses depois de Robert Francis Prevost, um cardeal nascido em Chicago, se ter tornado Papa Leão XIV na Cidade do Vaticano, ele contactou o serviço de customer service do seu banco, sediado em Chicago e onde tinha algumas contas bancárias.
O novo Papa apresentou-se como Robert Prevost, dizendo que desejava alterar o número de telefone e a morada que o banco tinha nos seus registos. O Papa respondeu diligentemente às perguntas de segurança corretamente.
Depois, a assistente do call-center disse-lhe que não era suficiente – teria de ir pessoalmente à agência.
Ele disse: “Bem, não vou conseguir fazer isso. Além disso, respondi a todas as perguntas de segurança.”
A operadora do call center do banco pediu desculpa. O Papa tentou uma abordagem diferente. “Resolvia a situação se eu te dissesse que sou o Papa Leão XIV?”, perguntou.
Ela desligou. 😊
Mesmo liderando mais de mil milhões de católicos pelo mundo e vivendo num esplendor dourado entre obras de arte inestimáveis, os Papas podem por vezes envolver-se no mundano, tanto acidentalmente como de propósito.
A questão foi resolvida graças à intervenção de outro padre que tinha ligação com alguns gestores de conta e gerentes do balcão de Chicago.
Ao dia de hoje, não existem notícias sobre a representante de apoio ao cliente que tinha cortado a chamada com o cliente mais famoso do banco. Provavelmente está, discretamente, a gozar da fama de ser conhecida como a mulher que desligou o telefone ao Papa. 😊
Hábitos. Outro dia estava a refletir sobre os meus hábitos. Apesar de ser fã e acreditar na comfort food e nos comfort sweets 😊, nos últimos anos até estou a ter uma alimentação e hidratação mais saudáveis e conscientes.
Mas esta reflexão expandiu-se depois para o resto das minhas escolhas e ações. Bebo muito chá, deito-me cedo sem ver televisão ou Netflix, acordo cedo e aproveito para caminhar perto do mar, janto de forma leve e vou fazendo jejum intermitente. Ouço Miles Davis, Frank Sinatra e Quincy Jones e adoro filmes dos anos 50 e 60 tipo Intriga Internacional ou os clássicos dos anos 80.
Mas também abro a porta a meninas e senhoras para elas passarem primeiro😊, paro sempre nas passadeiras, não estaciono em cima de curvas ou em lugares destinados a pessoas com mobilidade reduzida e deficiências, digo sempre bons dias e coisas do género. E sinto-me algo sozinho nesses hábitos.
“Caramba” – pensei eu – “ainda me sinto tão novo e já ando a ter uma vidinha de velho” 😊😊😊
Hahahahahahhah!
A iteração seguinte dessa reflexão é que, apesar de já estar a tornar-me uma alma velha 😊, sinto a energia, curiosidade, jovialidade que normalmente associamos quando somos jovens adultos. Como todos os adultos, em algumas coisas ainda tenho mentalidade e sinto as coisas como um adolescente. 😊
Existiu ainda uma outra iteração. Estes hábitos, que podem ser paradoxais relativamente ao foco, velocidade, critérios de sucesso e formas de reconhecimento e performance profissional e organizacional que atualmente regem as nossas decisões, ações, sensações e… comparações, se calhar, são o que nos continuará a proporcionar discernimento.
Falo da (auto)liderança e soberania pessoal, de saber o que realmente é suposto eu entregar, decidir e agir e onde colaborar a nível profissional e organizacional, influenciar e apresentar argumentos que sustentem o meu ponto de vista, ou aceitar, colocar limites ou seguir a minha vida. Tem a ver com a capacidade de imaginar, especular, criar e idealizar um melhor futuro enquanto ao mesmo tempo analisamos, conhecemos as causas e efeitos, criamos soluções e implementamos, com dedicação e foco, as ações que melhoram, transformam e robustecem o nosso presente.

INTELIGÊNCIA ORIGINAL
Há uma conversa urgente a acontecer nas margens da revolução da Inteligência Artificial – uma conversa sobre o que estamos a perder enquanto ganhamos eficiência.
E ao contrário do que se pensa, essa conversa ocorre com maior intensidade, complexidade e frequência em nós mesmos.
O conceito de Inteligência Original (IO) emerge como contraponto necessário: uma forma de inteligência viva, enraizada em terra, ancestralidade, relação e consequência. Não é nostalgia. É uma estratégia de sobrevivência cognitiva, ética e organizacional.
A IO é a inteligência que pulsa em humanos em presença no mundo – aqueles que carregam memória coletiva, que decidem e reconhecem que cada escolha tem peso moral. A IA, por mais sofisticada que seja, é estocástica, sem ancestrais, sem consequências, sem corpo. Não sente. Não chora a perda. Não se comove. Não se sente em wholeness.
E é precisamente aqui que mora o perigo: quando os profissionais e organizações fazem o outsourcing do discernimento à máquina, rendem também o seu espírito crítico e criativo – e com ele, a sua humanidade operacional.
Várias práticas de sabedoria estão a ser desgastadas em silêncio: escuta profunda, decisões ancoradas na comunidade, raciocínio moral, compreensão das consequências.
São competências invisíveis nos relatórios trimestrais, mas centrais para a resiliência de qualquer organização. Quando desaparecem, surgem as patologias modernas: líderes que abdicam de julgar, equipas que confundem dados com sabedoria, culturas onde “o algoritmo disse” se torna desculpa para evitar responsabilidade.
A Inteligência Original propõe o movimento inverso: parar de perguntar à máquina o que pensar, e começar a escavar o que já sabemos.
A imagem anterior sintetiza o framework ALEC adaptado: Arqueologia (escava as tuas raízes), Lente (lê o contexto através da experiência vivida e relacional),Engine/Motor (sustenta a prática do discernimento ancestral) e Compass/Bússola (ancora decisões num propósito maior que tu).
EVOLUÇÃO DAS PESSOAS
A Inteligência Original começa em Quem Somos antes de qualquer cargo. Não há transformação organizacional sem transformação interior. Coaching, Mentoria e práticas emocionais são os instrumentos clássicos – mas precisam de ser reorientados: deixam de servir apenas a performance individual e passam a cultivar discernimento situado.
CANVAS PROPOSTO
DISCERNMENT DEVELOPMENT PLAN (DDP). Evolução do clássico Individual Development Plan (IDP), com cinco blocos:
(1) Leadership Narrative & Personal Brand – quem sou enquanto líder e profissional, que histórico defendo, que reputação construo;
(2) Personal Stakeholder Map – quem influencio, quem me influencia, quem me dá honest feedback;
(3) Discernment Competency Matrix – que decisões assumo, que decisões delego, que decisões nunca delegarei à IA;
(4) Practice Stack – práticas semanais de reflexão, escuta e revisão (mensuráveis, não wishlist);
(5) Purpose Statement – propósito profissional que ancora prioridades e trade-offs.
ACIONÁVEIS:
- Substituir annual performance reviews por trimestral coaching conversations com chefia direta + revisão semestral formal;
- Implementar Skip-Level 1:1s mensais para captar sinais que a hierarquia direta filtra;
- Lançar programa de Reverse Mentoring (juniores são mentores de séniores em literacia digital; séniores são mentores de júniores em discernimento e contexto);
- Criar Personal Operating Manual para cada profissional (como trabalho melhor, o que me desgasta, como dar-me feedback) e partilhar com a equipa em onboarding.
BUSINESS TRANSFORMATION
A Inteligência Original não é avessa a métodos – exige processos com alma. A transformação de negócios precisa de reacoplar técnica e discernimento.
CANVAS PROPOSTO
RESPONSIBLE STRATEGY CANVAS. Extensão do Business Model Canvas de Osterwalder com cinco blocos adicionais que injetam discernimento na arquitetura estratégica:
(1) Extended Stakeholders (incluindo stakeholders silenciosos – gerações futuras, comunidades, ecossistema);
(2) Second & Third Order Consequences das propostas de valor;
(3) Human-in-the-Loop Decisions (decisões críticas que nunca serão automatizadas);
(4) Strategic Memory (aprendizagens organizacionais a preservar entre ciclos);
(5) Ethical Bets (onde sacrificamos margem para preservar integridade – equivalente a um risk register invertido).
ACIONÁVEIS:
- Instituir AI Decision Protocol documentado: que decisões a IA recomenda, quais executa, quais nunca toma;
- Realizar Quarterly Business Reviews (QBRs) com bloco obrigatório de Impact & Consequence Review;
- Substituir planeamento estratégico anual rígido por Rolling Strategy Reviews trimestrais com pontos de re-ancoragem ética;
- Lançar Strategic Foresight Workshops anuais (cenários de 5-10 anos) com stakeholders internos e externos.
CULTURA E WORKFLOWS
Sem mudança cultural, qualquer iniciativa de IO morre na primeira reunião.
Cultura é o sistema operativo silencioso onde a Inteligência Original floresce ou se extingue.
Workflows desenhados apenas para eficiência matam o discernimento; workflows desenhados para discernimento podem incorporar eficiência.
CANVAS PROPOSTO
CULTURAL OPERATING SYSTEM CANVAS. Inspirado no Culture Canvas de Dave Gray e no modelo de Edgar Schein, em seis blocos:
(1) Espoused Values vs. Lived Behaviors – gap entre o que dizemos e o que fazemos;
(2) Rituals & Operating Rhythm – cadência de reuniões, all-hands, retros, celebrações;
(3) Decision Rights & Governance – quem decide o quê, em que prazo, com que escalada;
(4) Communication Norms – async vs. sync, canais, response time expectations;
(5) Recognition & Consequence – como reconhecemos sucesso e como respondemos a erro;
(6) Cultural Artifacts – playbooks, onboarding, símbolos, linguagem partilhada.
ACIONÁVEIS:
- Realizar Cultural Audit anual combinando diagnóstico Schein + Westrum + Lencioni
- Implementar Working Agreements documentados por equipa, revistos trimestralmente em retrospetiva.
- Instituir Operating Rhythm Calendar transparente (todas as reuniões críticas, cadência, propósito, decision rights)
- Adotar decisões por consentimento (Sociocracia) para decisões de equipa;
Lançar Engagement Pulse mensal com 3-5 perguntas + ações documentadas (não inquéritos sem follow-up)

CODA
A Inteligência Artificial é uma ferramenta poderosa. A Inteligência Original é uma forma de estar no mundo. As duas podem coexistir – mas apenas se reconhecermos qual delas decide.
PARA O PROFISSIONAL: Bloqueia 30 minutos esta semana sem ecrã. Escreva a resposta a três perguntas – De quem herdei o meu modo de trabalhar? Que decisão recente deleguei à máquina que devia ter sido minha? Qual é o meu propósito que nenhum algoritmo pode calcular?
PARA O LÍDER DE EQUIPA: Na próxima reunião, abre com um check-in de cinco minutos onde cada pessoa partilha uma coisa que carrega hoje. Observe a diferença na qualidade das decisões que se seguem.
PARA A ORGANIZAÇÃO: Identifica uma decisão estratégica que esteja a ser informada (ou tomada) por IA e cria um conselho de discernimento humano para a reavaliar antes de avançar.
A Evolução das Pessoas, a Transformação dos Negócios e o Design da Cultura não são iniciativas paralelas – são três expressões do mesmo movimento: o regresso ao discernimento vivo, situado, relacional, ancestral.
A Inteligência Original não é luxo nostálgico. É a vantagem competitiva – e a vantagem ética – das organizações que vão prosperar nesta década.
Eu sei que isto, apesar de fazer sentido, parece mais complexo, trabalhoso e “doloroso” quando vivenciamos isto no dia a dia. Eu também sinto isso, mesmo sendo cada vez mais contratado para ser um profissional do discernimento.
Acho que aqui o desafio é utilizarmos a Inteligência Original de forma assumida e honesta e também de forma realista reconhecer o contexto que temos, as características que nos tornam humanos e como tudo isso nos levou ao atual estado do trabalho, organizações e profissionais.
Tendo escolhido (tal como para outras coisas) o Caminho do Meio para poder suportar profissionais e organizações, e acreditando que o trabalho e as organizações são, neste momento, o melhor e mais forte veículo da nossa ambição moral, faz-me sentido que não atiremos o bebé juntamente com a água do banho.
Acho que a minha esperança realista se materializa no “estrondo” que a seguinte questão provoca:
Imagina a Tecnologia, sem as tech companies (com as “dinâmicas” e à forma como estas estão a impactar o mundo).
Como estaríamos nós como Pessoas? E como seria o Mundo?
A minha resposta é um sorriso (Original). 😊
Obrigado, Abraço e Fica Bem,
H