O que há de melhor no homem somente desabrocha quando este se envolve em algum tipo de comunidade, a começar por aquela que vive dentro de si — Adaptado de Albert Einstein
Não sou a pessoa mais comunitária do mundo, quer a nível de ativismo social ou político, quer na participação em eventos associados a causas sociais fraturantes e infelizmente ainda presentes no nosso mundo e sociedade de abundância.
A minha contribuição é eventualmente mais individual e discreta, fazendo o melhor que posso para que, de alguma forma, possa trazer alguma leveza a quem está a passar um mau bocado.
Através de um “bom dia”, “obrigado”, “tudo de bom”, “desculpa”, nas várias dimensões do meu dia-a-dia – desde à interpelação do arrumador 😊 até à escuta ativa e lançar questões ao nível da minha rede de pessoas mais íntima.
Ou não comprando produtos de certos países e rejeitando algumas ofertas de trabalho para algumas áreas de negócio e para projetos em estados, países e organizações onde os direitos de liberdade, escolha, igualdade e respeito pelos colaboradores e sociedade não são a norma e não fazem parte dos seus valores.
Mas, apesar de a minha bateria social se alimentar através de tempo e espaço individual conjuntamente com a presença e partilha com um pequeno grupo de pessoas, reconheço o papel que as comunidades podem ter em todas as dimensões da vida humana e por conseguinte, nas organizações.
A semana passada eu e a KNOWMAD tivemos a oportunidade de facilitar um workshop de mentoria corporativa para uma equipa de mentores internos de uma grande organização multinacional da indústria automóvel, cujos serviços partilhados estão sediados aqui em Portugal.
E sendo pessoas diferentes, com percursos, conhecimento, experiência e valências diferentes, formavam um bloco homogéneo nos valores, princípios e principalmente na sua postura de serviço, suporte e genuína vontade de contribuir para a evolução pessoal e profissional dos seus atuais e futuros mentees.
De alguma forma, formavam uma Comunidade, tendo talvez num papel mais relevante, mas com o foco principal de contribuir para que o resto das Pessoas daquela organização seja mais autónoma, competente, equilibrada a nível das suas dimensões técnicas, relacionais e emocionais. Para que a organização possa ser perene, sustentável e evolutiva ao nível da sua performance, inovação, entrega de valor e experiência de cliente/colaborador.
Num artigo anterior, partilhei contigo que considero que é um erro crasso vermos as organizações como uma família. Faz-me muito mais sentido usar a metáfora da tribo, que sustenta a vertente da comunidade.
Ontem, por acaso ou talvez não 😊estava a navegar na maionese sobre a questão da importância da rede, da partilha, do compromisso, da entrega, da entreajuda nas várias dimensões da vida. E surgiu-me no “radar” uma framework relacionada com o conceito de comunidade que me pareceu, para além de interessante, super relevante.
Em tempos líquidos e polarizados, as comunidades organizacionais estão cada vez mais unidas e/ou desavindas “apenas” pelas visões comuns dogmáticas, geracionais, que se movem apenas nos polos da discordância total ou do pensamento de grupo míope.
Faltam caminhos do meio e terceiras vias. Partilho então quais as dimensões-chave desse conceito de comunidade e como pode este ser aplicável e ter impacto nas organizações.
COMMUNITY WEAVING
Erin Dixon, Fabian Pfortmüller, Michel Bachmann & Sita Magnuson criaram esta abordagem, onde se apresenta a Comunidade como sendo o espaço onde os seres humanos se unem guiados pela generosidade, confiança e cuidado. Também nas organizações isto é possível! Por muito estranho que seja. 😊
Como referi, e em contexto organizacional e profissional, cada vez mais as nossas teias relacionais estão a desfazer-se.
O projeto destes senhores é um “convite a (re)imaginar o que significa comunidade nestes tempos de transição, explorando eu aqui a componente organizacional. Como podemos tecer as relações para uma organização com uma:
- Cultura saudável;
- Inovação e performance com propósito;
- e que é um enabler da Evolução das Pessoas e profissionais?
Existem infinitas formas de descrever o que significa “comunidade” entre culturas, contextos e línguas.
Para estes autores e pensadores, uma comunidade é uma teia de cuidado mútuo em torno de uma possibilidade compartilhada. É fácil generalizar “comunidade” como qualquer grupo de pessoas com interesses compartilhados, ou como estruturas, ferramentas digitais ou eventos, como normalmente se materializa nas organizações. É escasso.
A Essência da comunidade são as relações de cuidado, mantidas unidas por um sentimento de afinidade e apoio mútuo. O nosso trabalho como líderes, managers, especialistas e operacionais é, dentro dos nossos âmbitos e responsabilidades, tecer uma tapeçaria florescente de reciprocidade nestas dimensões.
Existem cinco elementos que fortalecem a saúde de uma comunidade e que facilmente podem ser transpostos para a dimensão profissional e organizacional.
- FOGO: As possibilidades que nos unem;
- REDE: As relações que nos mantêm ligados;
- RITMO: Os rituais que nos conectam;
- CÍRCULOS: Os papéis que podemos desempenhar;
- ESPIRAL: As nossas jornadas individuais e coletivas.

FOGO
No centro de cada organização existe um fogo, daqueles que não devemos apagar 😊- uma fonte de possibilidade e energia que atrai as pessoas. É o que as aproxima em primeiro lugar e as faz voltar. É a nossa identidade coletiva e sentimento de pertença. O nosso propósito partilhado e os nossos valores fundamentais. Que se manifestam através do nosso trabalho, competências e experiência.
No início, o fogo é muitas vezes apenas uma centelha e podemos alimentá-lo contando histórias de quem somos, de onde viemos, por que nos unimos e o que representamos como organização, profissionais, produtos, serviços e soluções. Quando temos clareza sobre nossa visão e valores, isso naturalmente atrai pessoas que ressoam com ela.
REDE
Uma organização ou equipa é uma teia invisível de relações. Essa é a base que sustenta cada grupo. Esta rede é forte quando as relações são baseadas na confiança, respeito e cuidado mútuo. Quando a teia está fraturada, as relações podem ser superficiais, transacionais ou contenciosas e, como resultado, as ideias, os recursos e a energia não podem fluir. Infelizmente vejo isto acontecer muitas vezes nas organizações.
Nutrir relacionamentos fortalece a rede. Ao criar oportunidades intencionais para as pessoas se conhecerem, fortalecemos o tecido da nossa comunidade. Quando abordamos as tensões e falamos com verdade para as correntes subjacentes não declaradas, tornamos possível que a rede se cure e restaure.
Os grupos e equipas são lugares poderosos para a transformação, no entanto, o trabalho de evolução organizacional precisa ser abordado com muito cuidado e com o apoio de guias experientes a todos os níveis – líderes, key persons, mentores e coaches, especialmente quando existem “traumas” coletivos causados por ineficiências nos processos e comunicação, cultura competitiva e agressiva, silos organizacionais e tudo o mais que pertença a estes registos. 😊
RITMO
A coerência cardíaca ou HRV (Heart Rate Variability) é a variabilidade dos intervalos entre as batidas do nosso coração. Surpreendentemente, essa métrica não reflete apenas a saúde física do coração, mas também está intrinsecamente ligada à nossa saúde mental e emocional. Além disso, a coerência cardíaca tem-se mostrado um poderoso meio de alcançar o estado de Flow e de aprimorar nossa clareza. Parece-me ótimo para a performance de pessoas e organizações. 😊
O Flow é aquele momento de intensa concentração, foco e envolvimento total com uma atividade onde o tempo parece voar, as distrações desaparecem, e nossa performance atinge o seu auge.
Organizações saudáveis têm um batimento cardíaco coerente. As pessoas reúnem-se regularmente para partilhar os seus dons e sucessos e apoiarem-se mutuamente nos desafios. Práticas centrais que atiçam o fogo e ajudam a manifestar o propósito compartilhado podem incluir reuniões, rituais, cerimónias ou outras formas de estar, aprender e agir em conjunto.
CÍRCULOS
Em todas as organizações, algumas pessoas contribuem muito, outras muito pouco, com muitas pessoas a fazê-lo de forma adequada. 😊
Estas diferentes camadas de participação são naturais e mudam ao longo do tempo. Numa organização saudável, definimos papéis claros e encontramos formas de honrar os diferentes níveis de envolvimento.
No círculo íntimo encontramos pessoas que cuidam do todo (às vezes chamadas de advisors, guardiões ou bombeiros). No círculo do meio estão pessoas que participam ativamente da comunidade (membros ou cocriadores). E no círculo externo estão as pessoas que se conectam mais livremente (amigos ou seguidores). Estes papéis são dinâmicos. As pessoas movem-se entre eles à medida que suas vidas mudam. Uma organização saudável define limites para a adesão a diferentes círculos e cria acordos em torno da reciprocidade, dos recursos e do poder.
ESPIRAL
As organizações são organismos vivos complexos. Tudo está em constante fluxo. As pessoas entram, circulam e saem das organizações, à medida que os compromissos e os contextos mudam. Como apoiar estes momentos de transição, tanto a nível individual como coletivo? E que caminhos ajudam as pessoas a moverem-se pelo grupo de forma consciente? Organizações saudáveis honram momentos de transição através de atividades ritualizadas. Uma maneira é receber novas pessoas com um ritual de iniciação, apoiando-as enquanto navegam pelo novo ambiente. Outra é homenagear quem sai com um ritual de gratidão. A organização pode precisar de se reinventar regularmente, entrando numa conversa sobre o que manter ou mudar à medida que continua a emergir e evoluir.

CODA
“Já há algum tempo que estou a considerar a expressão ‘todas as minhas relações’. É extremamente importante. É a nossa graça salvadora no final. Aponta para a verdade de que estamos relacionados, estamos todos conectados, todos pertencemos uns aos outros. A palavra mais importante é TODOS. Não apenas aqueles que se parecem comigo, cantam como eu, dançam como eu, falam como eu, rezam como eu ou se comportam como eu. TODAS as minhas relações. Significa cada pessoa, assim como significa cada pedaço de relva, rocha, mineral e criatura. Eu vivo porque tudo o resto vive também.”
– Richard Wagamese
Esta citação pode parecer um pouco lamechas para um contexto organizacional. 😊
E sendo eu uma pessoa com alguma sensibilidade, sou também bastante pragmático relativamente ao nível de transformação que estas partilhas que faço implicam e relativamente ao nível de transcendência, desapego, compaixão, bondade, amor e paz que tudo isto implica, e que são sementes que normalmente não vingam no solo organizacional. 😊
Mas nos últimos anos estou a assistir a muito stress, desmotivação, agressividade, intolerância, polarização e considero que só as dimensões fofinhas 😊 apresentei no paragrafo anterior podem trazer algum equilíbrio para a Força. 😊
Na segunda parte deste artigo irei apresentar como podem algumas ferramentas de Desenvolvimento de Pessoas, Inovação Organizacional e de Cultura e Workflows sustentar e materializar as 5 dimensões da Comunidade Organizacional.
Numa época onde procuramos cada vez mais as respostas externamente, segundo uma exposição percecionada e normalmente artificial de sucesso profissional, pode ser fixe relembrar-te o verdadeiro significado do termo Guru — como explicado no Advayataraka Upanishad.
“Um verdadeiro guru é alguém que te ajuda a fazer a transição da escuridão para a luz — especificamente a transição da tua escuridão (confusão, falsa certeza, crença errada) para a tua luz (clareza, sabedoria, consciência dos limites do teu próprio conhecimento, etc.)“.
Ênfase meu na palavra “Tua!”! 😊
Acho que é esse o real papel de um consultor, facilitador ou coach – Trazer clareza para contextos, organizações e processos que não são “seus” e para Pessoas que não são como ele/ela.
Por isso é que a comunidade organizacional é tão importante. Porque é a melhor forma de, em conjunto, nos tornarmos donos do nosso destino, independentemente do nosso futuro.
Obrigado, Abraço e Fica Bem,
H